O QUE É?

Benjamins é uma transleitura da obra de um autor consagrado, que se desdobra em outras criações.

Também pode ser a leitura das transleituras feitas.

É a derivação, por conexão e prolongamento, de um “gene criativo”.

Porque toda obra deve ser um universo em expansão.

GENE

A Mulher a Caminho do Fogo
Yasunari Kawabata

(Tradução de Meiko Shimon)

O lago brilhava minúsculo ao longe. Sua cor lembrava a fonte de água podre de um jardim abandonado em noite de luar.

Na margem oposta ao lago, o bosque esparso queimava em silêncio. O fogo se alastrava rapidamente. Era um incêndio florestal.

O carro de bombeiro movido a vapor corria na margem, parecendo um brinquedo, nitidamente refletido na água.

Enegrecendo a ladeira, uma multidão vinha subindo incessante.

Quando dei por mim, o ar iluminado ao meu redor se achava sereno e parecia seco.

O bairro situado na parte baixa da ladeira era um mar de fogo.

Passando habilmente entre à multidão, ela descia sozinha a ladeira. Era a única a fazê-lo.

Era um mundo estranhamente sem som.

Vendo-a avançar diretamente ao mar de fogo, eu sentia uma insuportável angústia.

Nesse momento, conversamos, sem palavras, com extrema clareza.

“Por que só tu desces a ladeira? Para morreres no fogo?”

“Eu não quero morrer. Mas, ao oeste está a sua casa. Por isto, eu irei para o leste.”

No meu campo de visão cheio de chamas, sua silueta era apenas um ponto negro. Sentindo-o como uma dor encravada nos olhos, despertei.

As lágrimas escorriam dos cantos de meus olhos.

A razão porque ela sentia horror de andar em direção à minha casa, eu já a conhecia. Não importa o que ela estivesse pensando. Eu de minha parte, vinha açoitando minha racionalidade para convencer-me de que, pelo menos aparentemente, o amor dela por mim estava extinto. Porém, independente do que ela realmente sentia, eu desejava acreditar, apenas para satisfazer ao meu amor próprio, que restava em algum canto do seu coração uma gota de amor por mim. Embora eu me zombasse duramente, desejava alimentar secretamente esse pensamento.

No entanto, este sonho não seria uma prova de que eu próprio acreditava em todas as dobras do meu coração, que não lhe restava um mínimo traço de simpatia por mim?

Meus sonhos são meus sentimentos. O sentimento dela no meu sonho é o seu sentimento criado por mim. É o meu sentimento. E, é óbvio que nos sonhos não há falsa exibição de sentimentos ou vaidades.

Pensando assim, senti tristeza e solidão.

(Hi ni yuku kanojo: 1924)

1ª CONEXÃO

Caminho-Fogo ou a Mulher – a…

(Transcriação, em recomposição livre, do conto de Yasunari Kawabata, por Marianne Liuba, em abril de 2013)

Mariana L

Minúsculongo e longe, o lago brilhava. Cor de abandono, e apodrescidas heras e arbustos e árvores e verbenas e vegetação numa corredeira miúda – a lua en(,)cima.

Lago espelho/lado outro, florest-flamante, e com surdina. Fogo corredeira também, num

correríado! Incêndulo!

Alta velocidade, o carro de bombeiro apareciava-se um brinquedo no reflexo d´água.

Negrescida multidão sombrescala a ladeeira, em incessantes de pés após pés ap…ós…p…é…s…

absorvei-me, e o luzminado ar que rarodeava-me serenou-se, quase pó!

Bairro abaixo a labareda única, única destruição

multidão, Ela perfurava-a como a agulha à seda – só e suave

fazia-o por si só.

Mundo mudo, sem som e em, ali…

Angustiava-me Vê-la volutear de vontade, pelo clamar da chama –

palavra não predita então, falamo-nos, como em raios:

– Desces só a ladeira? E apenas tu… Queres a morte junto ao fogo?

– Não a morte, mas repara que ao oeste situa-se a tua casa. Irei, portanto, para o leste!

Meu olho via um ponto redondo e contrito, na tela branca das chamas – era Ela! DoEu-me o ponto – pontadas/pisadas/pontapés – e acordei, lágrimas e olhar que vazio se esvaia e ia ali, em mim…

Sabia do horror Dela em rumar para minha casa. O que pensava – não importa! Meu entendimento queria dizer, sábio, que nas cascas da aparência o amor Dela se dextinguiria. Queria, porém, mesmo que Ela não, algum canto oculto num canto de seu coração – autodesprezo pelo que eu sentia, mas queria sentir!

Sonhar assim entanto não é prova de que se acredita em todos os desvãos do coração? Que nada restava do apreço/laço Dela por mim?

Sonho o que sinto. O que Ela sente lá, no um-onírico, é o seu sentimento criado por mim. Sentimento meu. E sonhos são máquinas antimetiras.

Pressenti uma solidão que fraquejou em minha tristeza.

Nota de Marianne Liuba – uso aqui uma espécie de emulação, num nível de isomorfismo, do iedogramatismo japonês, buscando seus equivalentes numa gama de procedimentos utilizados por autores ocidentais que lidaram com a criação linguística e a invenção de palavras, como Joyce, Oliverio Girondo, Murilo Mendes, Beckett, Décio Pignatari, Leminski, Guimarães Rosa, parte do surrealismo e de Dada, e outros.

 

 

2ª CONEXÃO

Moça-Chama
(Escala Hirajoshi)

(Canção composta a partir de conto de Kawabata, transcriado por Mariana L)

Luciano Garcez

A cidade arde em luz e desapiedade
Sobe a moça o morro com a água que acabou
Pois ela não vê que a vasilha está vazia
O fogo engolfou o amor no ar de murcha dor.

Se ela vai pro Leste que o bem-vindo vento a leve
Lave os seus pés e passos com sopros do céu
Já amei por dentro aquilo que hoje luz fora
Pura labareda dela, avermelha o véu.

A voz que me invade
Voa ao invés
Som que mora dentro
Cova dum convés.

Cor de abandono
Dor que fraquejou
Sólida tristeza
Voo como vou…

CLIPE DA CANÇÃO: