“The Broken Tower”: A Grafia de Bordo de Hart Crane Pelo Olhar de James Franco

Por Anderson Lucarezi

Apesar de, dentro da filmografia de seu diretor, integrar um grupo de filmes que tratam marcadamente da questão da homossexualidade, The Broken Tower (2011), escrito, dirigido e produzido por James Franco, transcende a categoria “temática homoerótica”, materializando via cinema, em uma elegante versão em preto e branco, a complexa vida-obra de Harold Hart Crane (1899 – 1932), poeta norte-americano nascido em Ohio.

O maior mérito do filme de Franco talvez seja a maneira por meio da qual os princípios rítmicos da poesia de Hart Crane tenham sido traduzidos para a linguagem visual. Dividido em seções numeradas intituladas Voyages, nome de um poema amoroso que Crane fez sob o impacto do relacionamento com o marinheiro dinamarquês Emil Opffer, o filme apresenta sequências da vida do poeta. Apesar de seguirem a cronologia, tais sequências não têm ligação imediata umas com as outras; apresentam-se como episódios independentes no interior de uma biografia. Tal configuração estrutural já alude, em certa medida, à poética de Crane, considerada, desde os seus primeiros críticos, hermética e difícil.

Esse engendramento de uma atmosfera “difícil” ainda inclui (na seção Voyage V) a leitura integral, por parte de Franco (que dá vida a Crane), de dois poemas do autor, My Grandmother’s Love Letters e The Marriage of Faustus and Helen, gerando uma cena em que há poesia (e poesia não facilmente penetrável) sendo vocalizada por aproximadamente doze minutos, sem interrupção e com apenas algumas variações do ângulo de filmagem.

Outra referência à poética de Crane são as cenas em que a Ponte do Brooklyn (tema de um épico publicado pelo poeta em 1930) aparece em flashes, com cortes, como se fosse apenas um vislumbre do espectador. Tal procedimento visual relaciona-se com a proposta que Crane tinha de povoar o imaginário do leitor com uma organização de palavras que oferecesse uma riqueza imagética pouco convencional, o que subverteria a forma de pensamento mais habitual, indicando brechas que, se exploradas, poderiam levar a uma experiência de contato com o absoluto; absoluto, esse, que ele, como poeta, teria vislumbrado e tentado reter através das palavras que configuram o poema. O registro desses “vislumbres” se evidencia tanto na sua obra, em momentos como aquele em que fala da tentativa de revelação de um unfractioned idiom (idioma não fracionado) perdido, quanto em sua vida, em momentos como aquele em que, apaixonado, disse ter visto the Word made Flesh (o Verbo transformado em Carne) . Abraçar tal absoluto, porém, revela-se uma tentativa fadada ao fracasso, da qual resultam apenas indícios: as tais brechas supracitadas, possibilitadas pelas palavras grávidas de imagens e expressas por uma sintaxe geralmente truncada, incomum, o que também contribui para a ruptura da lógica habitual.

Provavelmente ciente de todos esses elementos da poética craneana, Franco criou um filme cujo conceito de forma (que, é sempre bom lembrar, já é conteúdo) superou os clichês das obras de “gênero gay”. Esperemos que outras empreitadas semelhantes aconteçam.

Veja o trailer do filme aqui:

Formado em Letras e mestrando em Tradução pela USP, Anderson Lucarezi é poeta e tradutor. Lançou, em 2012, Réquiem (Editora Patuá), livro vencedor do Programa Nascente USP 2011. Quatro anos depois, lançou Constelário(Editora Patuá). Em 2017, publicou, em parceria com Lucas Zaparolli de Agustini, Gravuras Japonesas (Editora Benfazeja), tradução integral e ilustrada de Japanese Prints (1918), obra do poeta norte-americano John Gould Fletcher. Além disso, publicou traduções de poesia em revistas como Zunái e Escamandro. Dedica-se, no momento, à tradução de Hart Crane, poeta de Ohio.