‘Hotel Lautréamont – Os Bruscos Buracos do Silêncio’, espetáculo da Cia CORPOS NÔMADES

Por João Andreazzi

O Hotel Lautréamont – Os Bruscos Buracos do Silêncio, espetáculo realizado pela Companhia CORPOS NÔMADES, inspira-se na crueldade da espécie humana em relação à própria humanidade e ao ato de esconder ou silenciar seus desejos de maneiras estranhas e inquietas. Os corpos dos intérpretes “zoomorfizam-se” e “zoofiliam-se”, como os personagens criados nos Cantos de Maldoror, exalando um surrealismo cênico, de onde brotam as conexões e as digladiações do corpo e da fronteira com o dito subconsciente. Nesse contexto, a corporeidade e a vocalidade da Cia. Corpos Nômades visam alargar o conceito de coreodramaturgrafia; a coreografia e a dramaturgia utilizam-se dos corpos dos intérpretes para orquestrarem e ressoarem toda a poética “lautreamônica”. A criação do espetáculo foi instigada e alimentada pelo tradutor das obras do Conde de Lautréamont, o poeta e ensaísta Claudio Willer. Este foi um encontro de inteligências malditas abençoando todo o processo investigativo. Este procedimento, como foi o caso da parceria com a dramaturga Marici Salomão na criação do espetáculo O Barulho Indiscreto da Chuva, dá continuidade à investigação cênica, avançando na interação do corpo com o espaço total – com o que fica abaixo da pele e com o que se estende além dela.

Sobre ‘Hotel Lautréamont – Os Bruscos Buracos do Silêncio’

Por Claudio Willer

‘João Andreazzi e a Cia. Corpos Nômades se inspiram na obra de Isidore Ducasse, que adotou o pseudônimo de Conde de Lautréamont para escrever Os Cantos de Maldoror. Nascido no Uruguai, morreu desconhecido, misteriosamente, em Paris aos 24 anos, em 1870. Além de ser um ousado exercício da liberdade de criação, é um ataque ao”corpus”, não só literário, porém de todos os campos do conhecimento, e dos valores e ideologia que os sustentam, para atingir a ideia do bem e, por extensão, qualquer positividade; principalmente, para atacar a lógica do discurso, a razão cartesiana. Essas qualidades de Os Cantos de Maldoror foram perfeitamente assimiladas por João Andreazzi e seus colaboradores da Cia. Corpos Nômades. No lugar de uma impossível transposição literal das narrativas de Lautréamont, Hotel Lautréamont – Os Bruscos Buracos do Silêncio é uma montagem de fragmentos, detalhes sugestivos, impressões provocadas por passagens do texto; por sua gama de sugestões visuais e sonoras; e, especialmente, corporais. Os Cantos de Maldoror podem ser lidos como apresentação do mundo onde tudo pode ser outra coisa; uma epopeia da metamorfose; especialmente, da transformação dos corpos. Daí seu bestiário, que tanto impressionou surrealistas: o homem-peixe, o piolho gigante, os adolescentes-tarântula, dragões, a bruxa transformada em bola de esterco, o escaravelho gigante, o homem com cabeça de pelicano, o arcanjo-caranguejo, o Deus-rinoceronte. Essas transformações simbolizam a liberdade absoluta, através da capacidade de ultrapassar as barreiras do corpo físico. Por isso, é mutante também o protagonista, o próprio Maldoror, ora jovem, ora de cabelos brancos, transformado em águia para combater a esperança, polvo para lutar com Deus, porco em seu sonho da felicidade perfeita, coisa informe, misturada à natureza, objeto de identidade indefinida. Essa temática da metamorfose como que pede a transposição para o espaço cênico através de falas, de sugestões visuais e sonoras, e principalmente pela dança e expressão corporal, na qual os integrantes da Cia. Corpos Nômades, de modo perfeitamente coerente com o nome e os propósitos desse grupo, vão se metamorfoseando diante do público, criando, por sua vez, novos corpos; ou os mesmos corpos, porém multiplicando suas possibilidades expressivas. Hotel Lautréamont – Os Bruscos Buracos do Silêncio é uma criação que se processa através de ressonâncias, de inconsciente para inconsciente, de sensibilidade para sensibilidade, passando dos trechos e conteúdos da obra de Lautréamont – especialmente a experiência de sentir-se um estranho no mundo, um hóspede neste nosso insólito “hotel” terreno – para os espaços cênicos, e destes para o espectador, assim convidando-o à recriação, à cumplicidade e participação. É um convite ao público, para que este mobilize sua imaginação, e se torne co-autor dessa obra em processo, em permanente movimento simbolizado pela imagem da ratoeira perpétua que o autor de Os Cantos de Maldoror pôs em marcha.

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NA ÍNTEGRA

A  COMPANHIA CORPOS NÔMADES

No ano de 2000 o bailarino, diretor e coreógrafo João Andreazzi, resolve rebatizar sua Companhia de João Andreazzi, que existia desde 1995, para CORPOS NÔMADES, surgindo assim a Cia. Corpos Nômades, uma companhia paulistana de dança contemporânea que tem como objetivo atuar na formação, criação e difusão das artes cênicas contemporâneas.

Em 2007, inaugura-se Espaço Cênico O LUGAR – Cia. Corpos Nômades, sede da companhia e centro cultural, que contribuiu para a revitalização da região conhecida como “baixo Augusta”.
Todos os trabalhos da Cia. Corpos Nômades buscam experimentar as amplas possibilidades de atuação cênica corporal, envolvendo, além da própria dança contemporânea, múltiplas linguagens, tais como teatro, literatura, vídeo-arte, música e instalações performáticas. O aporte de verba pública destinada a ARTE permite a essa companhia, assim como a tantos outros artistas preocupados com o pensar e fazer arte contemporânea, investigar e experimentar, fazendo o máximo com o mínimo.

No ano de 2017, a Cia. Corpos Nômades completa 22 anos de existência e João Andreazzi comemora 28 anos como coreógrafo. Nesse percurso, destacam-se alguns prêmios e eventos importantes das artes cênicas, tais como: Programa Municipal de Fomento à Dança de São Paulo; Funarte Klauss Vianna 2007; Dança em Pauta – CCBB/SP – 2007; Caixa Cultural 2007; Panorama SESI de Dança 2005; APCA 2005; Mostra Internacional SESC de Artes – Mediterrâneo 2005; Prêmio Estímulo à Dança SMCSP 2004; Rumos Itaú cultural Dança 2003; Funarte – EnCena Brasil 2002; Mostra Oficial do festival de teatro de Curitiba 2001; Bienal de Dança do SESC/SP 2000; APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) 2000, 2005 e 2010; Nederland Dans Dag 1998; Bolsa da CAPES – APARTES para estudar na SNDD – Holanda 1996; Porto Alegre em Cena 1995; Prêmio Estímulo da Secretaria do Estado da Cultura 1994; Movimentos de Dança – SESC/SP 1989, 1991 e 1993. O grupo recebeu o Prêmio Klauss Vianna Funarte de 2008 e contou com diversos Programas do município de SP para fomentar a dança na cidade. De 2013 até 2016, a companhia contou com o Petrobras Cultural.

CLAUDIO WILLER

Claudio Jorge Willer (São Paulo, 1940) é um poeta, ensaísta, crítico, tradutor, editor e administrador cultural brasileiro. Graduado em Ciências Sociais e Políticas pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (1963) e em Psicologia pela USP (1966), doutorou-se, em 2008,  com a tese Um Obscuro Encanto: Gnose, Gnosticismo e a Poesia Moderna, na USP, mesma instituição em que concluiu, em 2011, pós-doutorado sobre o tema “religiões estranhas, misticismo e poesia”. Como poeta, Willer distingue-se pela ligação com o surrealismo e a geração beat. Ao lado de Sergio Lima e Roberto Piva, é um dos únicos poetas brasileiros a receber menção do periódico francês La Brèche – Action Surréaliste, dirigida por André Breton em fevereiro de 1965. Como crítico e ensaísta, escreveu em vários periódicos brasileiros: nos diários  Jornal da TardeJornal do Brasil (caderno Idéias),  Folha de S. Paulo, O Estado de S. PauloCorreio Braziliense, nas revistas  Isto É  e  Cult  e em publicações da imprensa alternativa e independente: jornal  Versus, revista  Singular e Plural, jornal O Escritor da UBE,  Linguagem VivaMuito Mais,  Página CentralReserva Cultural (cinema) e outras. Seus trabalhos estão incluídos em antologias e coletâneas, no Brasil e em outros países.