Performance

Por Guto Lacaz

A grosso modo o teatro se baseia na palavra, no texto, na dramaturgia.

A mímica, na ausência da palavra e de objeto.

A dança, no movimento do corpo no espaço

A performance, na cena nonsense com objetos.

Em 1979, na Cooperativa de Artistas Plásticos de SP, quando vi uma foto do Aguilar onde ele tocava piano com luvas de boxe, foi como ver um grande enigma.

Perguntei a ele o que era aquilo e me respondeu – uma performance, Guto! Posso te mostrar o vídeo em casa.

Lá estava eu na data e hora combinadas. Fiquei maravilhado com esta nova possibilidade de ação artística – a cena nonsense com objetos.

Comecei então a pensar no assunto, mas sem resultados.

Só em 82, ao visitar a Galeria São Paulo, vejo o saudoso Granato que direta e energeticamente me perguntou – Guto: quer fazer uma performance?

– Oba, claro!

– Estou organizando a Band Aid: 60 performers farão cenas de 1 minuto cada. Será um entra e sai organizado pela produção.

Achei ótimo esse tempo e esse exercício coletivo para começar.

– Será quinta que vem no teatro do CCSP.

Eu só teria que criar a cena de um minuto e reunir coragem para apresentá-la.

Grande frio na barriga, sensação gostosa nunca antes vivenciada.

Show time!

Entrei e fiz o planejado, o público riu e eu saí – aplausos!

Que delícia! Não quero nunca mais parar de fazer!

Tinha descoberto o palco como espaço para manifestações artísticas de artes plásticas e um grande prazer, performar.

Daí pra frente comecei a estudar o potencial cênico dos objetos e em 1983 apresentei no Radar Tantan a ELETROPERFORMANCE.

Neste mesmo ano a Bienal convidou uma grande delegação do Grupo Fluxus. Um dia, ao entrar no prédio, como que combinado, alguns dos artistas estavam a apresentar suas performances.

Vi ao menos três que adorei e que reforçaram minha modesta teoria.

Ben Vautier, agachado, mergulhava sua cabeleira em uma tigela com tinta preta e depois, como um pincel gigante, pintava um enorme caligrama em um rolo de papel que ativava com os pés.

Dizia no final tratar-se de uma criação de Nam June Paik, que a fazia com sua gravata.

Em outra, ele martelou todas as teclas de um velho piano de armário

e, de vez em quando, trocava de martelo.

Outro artista atirava lâmpadas incandescentes queimadas sobre um vidro blindex encostado em uma das colunas.

A cada estouro uma sutil fumaça saía do interior das lâmpadas, criando uma atmosfera nonsense.

Três curtos e belos espetáculos, três putas performances.

Eu tinha acabado de fazer free um Mestrado em Performance.

 

Link para “Helicubo” (2011) e Máquinas V (2009):

 

GUTO LACAZ

Carlos Augusto Martins Lacaz, Guto Lacaz, é arquiteto formado pela  FAU SJC em 1975.

Em 1978, ganha o prêmio Objeto Inusitado e inicia sua carreira como artista plástico.

Em 1982, realiza Idéias Modernas, sua primeira individual, na Galeria São Paulo. Em 1985, ELETROPERFORMANCE, na 18ª Bienal. Em1987, Eletro Esfero Espaço, na exposição A Trama do Gosto. Em 1989, a composição flutuante Auditório para questões delicadas, no lago do Ibirapuera, e Cosmosum passeio no infinito, no MASP.

Em 1995, ganha a Bolsa Guggenheim. Em 1999, realiza o espetáculo Máquinas III no Teatro Cultura Artística. Em 2014, Ulysses, o elefante biruta, no Parque Pedreira do Chapadão, em Campinas.

Em 2017, realiza ADORARODA, intervenção urbana no Largo da Batata, e em 2018, art lab, na Galeria Marcelo Guarnieri.

Livros publicados: Desculpe a Letra (Ateliê Editorial), Gráfica (Arte Moderna), omemhobjeto – (Decor Books), 80 desenhos (Dash Editora), Arte é energia – (IOK), Inveja e FUTURO (edições do autor).

É Membro da AGI – Alliance Graphique Internationale.