…folle è ben che si crede…

 

Ela tinha olhos laminares, que buscavam a alma alheia para dissecá-la como se fosse um feixe de músculos. Mas não o fazia por cálculo – antes, por uma arte obscura, inerente ao seu ser selvagem, recuado – mas de pássaro então silencioso. Menina de subúrbio de Santo André, evangélica, leve e casualmente loira, tinha a pele rija, pernas que se firmavam no chão como se quisessem de alguma forma enraizar-se nele para, logo depois, fugir – puro capricho – num voo despreocupado e libertador.

 

Peguei no ar este voo ansiado que ela arremessava como desejo sem peso várias vezes durante ensaios e aulas, e não à toa, soube anos depois que se tornara aeromoça.

 

Não vou me lambuzar aqui com os açúcares da palavra, porém, devo, como ‘sujeito’ pós-moderno, fustigar meu mal-educado romantismo juvenil, que de muito Schubert, Álvares de Azevedo e coetâneos, tatuou-me nos neurônios uma propalada “queda na transcendência”, onde me flagro em transformantes contemplações arrebatadas sobre a superfície escorregadia do vácuo/vida.

 

Ela era bela, de uma beleza simplificada em um ideograma de traços levemente corados, e mais bela ainda era sua/minha imagem e a construção, pixel por pixel, de sua cor, sua linha precisa, desvelo de gestos, castos diálogos mínimos e, principalmente, o que eu desejava – bem mais do que fosse assim – seu “Ser”.

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