STEFFANI E HANDEL – AS PARTIDAS BARROCAS

Por André Küster e Luciano Garcez

Agostino Steffani (1654-1728) foi notável compositor numa época de notáveis compositores, isto é, na fase do Barroco Musical Tardio, ou ainda, para alguns, do Último Barroco. Junto à Renascença, nenhuma outra época produziu tantas obras musicais com um valor estético tão alto, e em gêneros tão distintos, indo do camerístico, instrumental solo ao vocal variado e à ópera. Vários nomes podem ser citados aqui, de geniais compositores de então: François Couperin, Torelli, Rameau, Domenico Scarlatti, Leonardo Leo, Marc Antoine Charpentier e muitos outros – além da tríade/comissão de frente Bach, Handel e Vivaldi. E mais um ilustre compositor desconhecido, agora não mais obscuro: Agostino Steffani. O grande musicólogo Manfred Bukofzer escreveu em seu seminal livro The Music in Baroque Era que “os Duos de Câmara de Steffani, cujo contraponto delicadamente composto só Handel pôde imitar, mas não superar”. E Handel foi o supremo artífice a escrever nos chamados “Gostos Reunidos”, ou seja, estilos de compor vindos de diferentes nações, com suas dicções musicais próprias nomeadas como “Estilo”: notadamente os estilos Francês, Italiano e Germânico.

A obra citada de Bukofzer fora lida por nós há tempos, e como na época em que a estudamos não tínhamos gravações disponíveis como hoje, Agostino Steffani sempre ficou, como muitos outros, um mistério em música a ser descoberto (sobre isso, um breve “toque enciclopédico/auditivo” para o leitor: basta entrar na internet e digitar o nome de QUALQUER compositor pouco conhecido ou à margem da história oficial da música, que um mundo sonoro inteiro se desvelará em poucos segundos diante de seus ouvidos, dando-lhe uma proximidade com o passado musical nunca antes sequer sonhada por qualquer melômano).

Nascido na Itália, no assim chamado “Veneto”, e tendo sua educação completada e a carreira musical seguida na Alemanha, Steffani escreveu influenciado pelos lendários dons melódicos daqueles oriundos de sua terra natal, em especial Veneza, e pela força vocal e dramática da já cristalizada grande ópera de Lully. Como seu compatriota Vivaldi, foi nomeado padre, coisa que nunca o impediu de compor música profana ou de obter triunfos mundanos nos agitados palcos de ópera de então.

Mas eis que digitamos o nome “Steffani” no Youtube e o mesmo ressurge, quase intacto em sua inteireza estética, nas vozes de Jaroussky e La Bartoli, num duo de uma das cantatas do compositor, que faz parte de um DVD/Álbum gravado com o que ele produziu em Versalhes.

Música de alturas nobilíssimas, é notável nela a profunda pureza das linhas melódicas, de pureza handeliana mesmo – Bukofzer estava certo. O cuidado com a expressão das palavras e a concreção da ideia poético-musical: Steffani nunca é prolixo, ele diz curto e grosso. Ou melhor, curto e dolce.

Clique e Ouça aqui  “Mia fiamma…mio ardore”, duo da ópera “Niobe” de Steffani:

E Steffani, de fato, conheceu o então jovem Handel, e a música do compositor italiano mais velho exerceu notável impacto na obra do nascente operista alemão, em especial no que se refere ao trabalho meticuloso de associação dramática exata entre palavra e música.

Lembremos que falamos de Barroco, ou seja, de TENSÃO e LANGOR. O Sol e Saturno, o dia cheio de metáforas da cor do ouro e a noite que é simplesmente treva. O que se conquista – o império, a coroa, o amor – e o que escapa pelos vãos cromáticos da vida: mais do que a batalha nos campos bélicos, os “combatimentos” amorosos é que dão o tom de dor, excruciante, mas belo, para as árias e duos das obras do período. É o amor que anda diáfano e obsedante nas óperas barrocas como, quase sempre, perda.

E Handel realoca em música, de uma maneira tão langorosa, sublime e nobre (tudo dosado em iguais proporções, marca registrada do “estilo Handel”) as palavras do anseio por ELA – ou seja, O OUTRO/AUSÊNCIA personificado no palco de um nome apenas, e que se dissolve no espaço da partida da palavra.

Das palavras, dizendo melhor:

“Querida esposa, amante querida,

Onde você está?

Ah! Volte (para as) minhas lágrimas,

para meu pranto “

Jaroussky dispensa comentários maiores na interpretação, mas a cena do filme “Farinelli” , uma cinebiografia do lendário cantor/castrati italiano, é bela e bastante sugestiva no “rappresentare” o que foi o “barroco” e seu “gosto coberto por símbolos” (no dizer de Walter Benjamin).

Uma pomba branca voa das mãos de Farinelli e pousa na plateia, logo à frente de um garoto que parece entender tudo o que dizem aquelas cenas – a de dentro do palco, a de fora e a do filme todo.

É a cena que levamos dentro de nós sempre que perguntamos “Dove sei, querida, onde, onde?”

Sem Handel, a vida seria um engano.

Clique e Ouça aqui  “Dove Sei”, ária da ópera “Rinaldo” de Handel: