“ABSTENHA-SE”
Crítica Destrutiva do Livro
“Abracabrasil”
dos “69 Vates”

Por Sílvio Romário

       Um dos males da Geração Coca-Cola, e da geração Coca Diet pós, e depois ainda a Light-Coca, e a Zero Caloria e etc. é que se trata de várias juventudes que obstinadamente não leem, e que, pelo uso do estofo furado de seu repertório, patina inocente sobre chavões literários, lugares-comuns imagéticos e da ideia. Tais novos rebentos não gostam da História e acham que ela acabou. Ótimo, ela voltará e ditará para a geração todo o passado, vomitando-o dialética e literalmente, só que já velho, dessorado, impessoal e com o Espírito da Gravidade de cueiros, e o jovem Apolo, sem talento currado por Hegel em questão, aqui ainda achará que está sendo “moderno”.
Lê-se mal quando se segue um ideário corrupto de alguma Universidade, que já mascou a sua meia-dúzia de autores e os apresenta com os vícios de sua própria leitura. Quem disse que Rabelais precisa de Bakhtin pra ser manter de pé, ou Dostoievski, com doses clivadas de parricídio freudiano, torna-se maior ou pequeno à luz de suas Noites Brancas?
Começa-se uma discussão vazia a partir daí porque, paupérrimos de repertório – por exemplo, um Jung para dizer não para Herr Sig “olhe que a libido tem suas metamorfoses”, ou uma Melanie Klein falando que “mamãe eu quero matar” também, entre tantas psi-possibilidades – que uma visita menos preguiçosa e de cartilha ao “Google Earth” faria muito bem, também e além, pro estofo intelectual dessa moçadinha de barba sem cultivo. E sou intransigente e feroz aqui, sem ser psicólogo e citando trocadilhos infames com as obviedades junguianas e kleinianas atrás de mim, e sabendo que isso causará furore sem saber a razão – vê-se que o nível é, de fato, ginasiano, algo como alguma 8a série B aprovada em massa no exame para o 3º ano de Sociologia da USP.
Dizem-se oswaldianos, estes poetas dos “69 Vates”, e não tem um pingo de humor para consigo próprio. Oswald diz em um de seus romances não lidos – “fui um dos maiores onanistas de meu tempo”. Algum dos 69 Verlaines teria a coragem de escrever isso? – no máximo, uma paráfrase inominavelmente sofrível:

Andorinha lá fora está dizendo
Lá, uma andorinha que lê
Um pássaro cego que gosta de dizer
Que minha vida se vai em despedidas
Vida & desprazer.
(“Bandeira In Extremis”, de Malsucedino Silhueto)

Repetindo, sem repertório fora da dança dos clichês, não há possibilidade de confrontamento, e o sujeito vira um palpiteiro de gracinhas retóricas, um gordo doutor de perucas cheias de talco molièriano com ares de seguidor de procissão, que termina por despencar no abismo e grita antes: éramos porcos e poucos, mas “em legião!”.

Assim, o livro “Abracabrasil”, dos 69 Vates, lançado pela Editora Orca. Creio que o 69 tenha um significado cabalístico obscuro, porque são 69 os pontos cardeais, 69 as luas de novembro, 69 pulinhos é o que se dá na marola canônica do Ano Novo, e 69 é o ponto de mutação ocidentalizado por Fenollosa, a partir de Fritz Capra – esse, com justiça, eleito o novo Paracelso.
Há um ditado no tráfico que diz que se você quiser seus inimigos controlados, mantenha-os bem perto. Lembro-me de Al Pacino dizendo isso, mas como minha memória, onde garoa toda noite 20 gotas de rivotril, está ficando com um giga a menos a cada ano, pode ter sido o Marlon Brando no “Chefão” – os Meia-Nove que me corrijam, já que de cinema de locadora e Netflix, sabem a cartilha toda.
Retomo a proposição inicial, martelo em punho: se você for incapaz de usar um bisturi, não abra um ventre para arrancar um corpinho de crânio mole e sem RG de lá – como se diz lá no Rio, “vai dar merda”. O mesmo se aplica à poesia – se não souber, pelo mínimo da palavra exposta, deixar o máximo explodir, vá teclar com uma garota subsexualizada e usar seus clichês de feira marginal e moderna, para pelo menos ter uma musa penetrável. Não cometa, por amor de sua mãe que lhe pôs no mundo, por João Cabral de Mello Neto que sofria de migrâneas infernais por causa de sua antimelos e, principalmente, por seu amor próprio, coisas do tipo:

Oswald andando moço
Cueiros ainda
Ao meu lado
Olha o bonde se transformando em trem
Que cruza a noite como um meridiano
Calado
No desesperado presente que nada diz.

(outra diamantina “Presença”, de Serimanto Benvenutto)

A primeira coisa que se nota aqui é que, se Oswald fosse jovem agora, vivinho da silva, ele certamente não estaria ao lado de um poeta da Zona Sul que chora seus kerouakismos fakes: iria enrabar a Dona Lalá ou a Isadora Duncan, porque não era parecido com Mário de Andrade por trás. Segunda coisa, esse pathos, à própria luz da palavra grega: algum cidadão que alguma vez tenha lido algum poema de Oswald em alguma apostila canhestra de cursinho poderia imaginar a palavra-imagem “desesperado(a)” associado ao Pau-Brasil que se antropofagou, graças à Deus?

“No desesperado presente que nada diz”

Se você for incapaz de emendar qualquer brique-a-braque retórico com “No desesperado presente que nada diz” com mais algo – talvez aqui no chute, de improviso, poremos “No desesperado presente que nada diz/riscando a pele do mapa”, por exemplo – não o faça. Solução fácil quem tem é o Fast-Bispo Edir Macedo, que é um só e ainda assim profeta (onipresente, onisciente e LacrimoGênio), e que ganha uma grana preta com seu Cristo-Macumba, e nem tem que pagar a edição de seus livros, mesmo que entre 9 o custeio barateie muito.
Não, 69 Vates, os franceses são joinha, viu? Deram-nos Gide, Genet, Sade, Lautréamont, Camus e mais doçuras e travessuras, que são os pais dessa parada aí que vocês chamam de contracultura ou pós-modernidade. Poe – e vocês sabem, porque a Facu repisa isso – foi redimensionado por Baudelaire, e Stendhal, que faria um bem enorme na cabeceira de vocês, detestava os EUA.
“Golpe de Status”, 69 Vates, vocês jogam videogames de trocadilhos, Nintendos de ironias (e olha que os franceses são mestres nisso) – coisa leve, de salão e que se faz em uma roda de chopp na Gávea, e depois publicam como se fosse uma epifania guinsberguiana. Peço silêncio enquanto a Literatura morre…

Para concluir, porque a inanidade cansa rápido e prefiro não ouvir a andorinha lá fora dizendo “escreveste à toa, à toa, Seu Sílvio”, nem declararemos guerra porque nosso soldado tem 1,89 e gosta de bater em crianças. E começamos com uma paródia ao grupo dos 69, a “Kuchka” da Gávea. Só que discutindo e questionando Ideias, e não Pessoas. E mais: cuidado ao citarem, usarem, falarem por Oswald. Não se trata aqui de bairrismo literário, mas um paulista ácido e nada “patético” como monsieur Andrade botaria estes pirralhos – por trás – do “Pirralho”:

AMERICAN BARBYE
(Crítica em forma de sátira – por Sílvio Romário)

       Beija-se na América por bocas de Bogart e sete selos nas sete encruza dos bares quentes e cheio de açaí e gelo & selos-sete nórdicos dum Bergman – família numerosa. Não é Camila Pitanga, ósculos do Dies Irae dados pelo anjo que cola cartazes do caos nos canyons em pele áspera da Serra do Mar, ou repelir-se. Porque a maior cena de amor na América é Silvia-Saint transando com quatro mecanizados bantos ao mesmo tempo, quando de fundo está lanhada – muito mais que pela pele africana – por odes pindáricas. Seis takes foram necessários, pois John Edward Cage Jr, retinto Exu Sete Bibliotecas do Arkansas, com uma tatuagem de sua mãe na coxa recém feita, ejaculava precoce toda a vez que olhava para os lábios fúcsia e borrados de Sílvia. Foi você mesmo, Seu Sete Bibliotecas, ou outra entidade do panteão javanês? – disse a beldade, em sua bela idade loira (etc.)