ROBERTO BICELLI – “ANTES QUE EU ME ESQUEÇA”

Roberto Bicelli é poeta imantador do movimento –  balanço e ginga – das realidades que passam. Cheias de atração, dentro do grau mais alto que a palavra “seduzir” possa ter em potência, estão essas coisas móveis e transeuntes tão imã-humanizadas por ele, que se soltam das contingências e exibem-se, triunfantes e felizes de realização, aos nossos olhos, quando do cotidiano entorpecidos.

Na segunda edição revista e ampliada de seu surpreendente livro Antes Que Eu Me Esqueça, lançada pela Editora Córrego, a poesia mais exata reina como o passear ilógico da cidade sobre a cidade, do homem sobre o cidadão, do explosivo ponto de fuga sobre algum detalhe insignificante ou morto, do acurado/captado ready made sobre o puro entulho, entre a terra e o céu da Urbe Imensa. No dizer acurado de Claudio Willer:  “é a poesia urbana, de um “flâneur” perpétuo, mesmo quando distante, ou até acentuada pelo contraste ao ver-se em um Piauí que brilha; obra de um evidente leitor de Mário de Andrade que, constantemente, apresenta atualizações dos epigramas oswaldianos, promovendo a reconciliação desses dois grandes modernistas. A enumeração de coisas amadas díspares, sobrepostas, aparentemente contraditórias, é típica de quem absorve a diversidade da metrópole. Mas tudo vem no seu lugar, na ordem certa, embora sujeito a nexos mais sutis do que aqueles do pensamento conceitual. ”

Escapando da razão e ordenados para que iluminem sem desvãos barrocos ou herméticos nosso sentir, leiamos os poemas pixels de Bicelli, com aquele amor oswaldiano de quem tudo vê, com os certeiros olhos – eletricidade & raiares – de espanto.

POEMAS

apontem   os   rifles

dedos      em   riste

falem       de    Rilke

da transitoriedade da

   vida

   do

   feto

componham rimas

em estruturas metálicas

esqueçam os chapéus

  pendurados nas

esquinas

quando passar o leiteiro

deixe sempre leite como sempre

recolha a coalhada que fermentou de madrugada

matem a fome comendo Hot Dog

há sempre um cachorro frio

absolutamente vazio

vigiando

passos & postes

quando se dobra uma rua

uma mulher nua

desaparece na esquina

besteira esquecer

ou falar palavrão

a solução está no contraste

usar camisa lilás &

cuecas cor de mofo

rasgar o peito &

morrer como Isadora Duncan

enforcado na vida

nunca enforcar-se pela vida

deixar-se levar

pela revoada dos berimbaus

imaginar

se pombos seriam brancos

se corvos amarelos

se papagaios mudos &

de passagem surdos a

                                     apelos

                                     medo

                                      anjos

                                      rotas

mas absolutamente contaminados

pela náusea

pelo bater do coração na ponta dos dedos

ser simples

esperar que a vida empurre

a cadeira de rodas

ser complicado a verdade

complicar sem conspurcar

o jogo

saber

que a vida é uma praça

os mesmos personagens a enrolar fumo

e cuspir no pó

                  mas

nunca espalhar o segredo

& imaginar-se

em degredo

no cômodo dedal.

But Love Batman?

  mas o que ele tem de diferente?

Ah! ele é onisciente?

    Pinta   Pinta   Pinta   Rapa

      Pintacuda

                   Choveu

As placas   as placas    as placas

Para dentro, pro centro, para cima

Um colar de luzes girando no cérebro

Vários colares de luzes girando nos cérebros

desceu, esquentou, preencheu…

Os olhos se tocam

As mãos se estendem

            ASSIM TUDO DEVE COMEÇAR

….

  PAPRIKA

  isto é:

  meu amor num curso d’água

  ou cristal de rocha

  1       2      3

  1       2      3

  eis o ovo da Ema

A. DE LAPARRENT

      nascido em 1903 é mais velho que eu

  Totalement fou

ça c’est l’amour

           ça c’est moi et nous

Lambeu-me a orelha até o ouvido

virou de umbigo e gozou comigo

veio ajudar-me a fazer a feira

e administrar nossos bens.

Que mais posso dizer desse clima?

nada, apenas que se ignore o verso acima.

….

….

já não

             sei   se

é bom esperar

       o quarto onde

o tango tomba

           e morre

                                quente

Os poemas devem ser gordos

e ter penas

como os frangos

os frangos úmidos dos quintais

os belos frangos

que ciscam o chão &

bicam os pés de urtiga

rasgado o peito

está o coração

pobre balão

sangue suor e nostalgia

amar é passar o dedo

numa agulha de vitrola

as poças d’água

as flores ásperas

os poemas frouxos

cordas soltas de celo

esse som

que vem de dentro

soprado pela boca indizível

que tentamos saber

que tentamos traduzir

essa onomatopéia delirante

que nos obriga a dizer

Eu te amo

quando queremos sussurar

Ben Close dinamite &

sempre teus lábios matam.

Tyco Ticho no Fubrahe

Livrai-nos Deus da Corrução

Do Chaos da Anarchia

Da Excecionalidade

Tenhamos Tacto y Tecto

Façamos Gymnástica

Combatamos a Infeção

A Sciência a Sucção

Pas du tout W

Aplainemos a Língua

De Pycos Phalésyas y Promonthórios

Circunspeto Aspeto

Evitemos Italianizmos, Francezismos, Españolysmos

Y ultimamente o Abril Portucalense

Sejamos… fotográficos

Optimistas

Sociológicos

Nostálgidos

Sem Nevroses nem Zunzuns

No afã de que o flautim

Abafe o Uivo

Que vem de Nós

Para Mim.

Marquinho,
vc que está aí
-em Portugal-
me diga:
sarará que
Pedro II
volta
de mãos dadas
com
D. Sebastião?
sarará que
teremos unção
em vez
de eleição?
sarará que
em vez de
Dilma
posso pensar
em
Maria Antonieta
enquanto bato
minha punheta?
sarará que
enquanto
a cabrita
berra
posso
me livrar
do Serra?
quiquando a
eleição
terminar
eu possa
desvotar
& continuar
vivendo
como toda
gente:
de-vo-ta-da-men-te?

Parlenda Mineira

Ready-made

pó pô pó?

pó pô.

ready made

ROBERTO BICELLI

Nascido em São Paulo, Roberto Bicelli é formado em Letras, com especialização em Literatura Brasileira e em Gestão Cultural.  Exerceu o magistério de 1975 a 1984, quando começou seu trabalho de gestão cultural na Fundação Nacional de Artes- Funarte. Publicou: Antes que eu me esqueça, poesia. (SP: Feira de Poesia, 1977), O Colecionador de Palavras, romance juvenil. (SP: Contexto, 1987), e Ego Trip, diário de viagem. (SP: Virgiliae, 2011). Pretende ter em si três séculos bem vividos de poesia: o 19, quando estava no ginásio e colégio e era clássico, romântico, barroco e quase nada parnasiano; o 20, quando ficou modernista no último mês do colegial e depois futurista, surrealista, beat, pop, e o século 21 onde surfa na Geléia Geral.