Dante Milano: exílio em si mesmo

Por Alexandre Shiguehara

Amigo próximo de Manuel Bandeira, Aníbal Machado, Heitor Villa-Lobos e outros artistas eminentes do Modernismo brasileiro, Dante Milano (1899-1991) publicou seus poemas em livro apenas tardiamente, em 1948, sob o título de Poesias. Apesar do reconhecimento crítico imediato, sua obra permaneceu sempre, como ainda hoje, sendo lida por um público diminuto – fato normalmente atribuído antes de tudo ao temperamento muito discreto do poeta. Mais do que repetir a constatação da injusta ‘impopularidade’ de uma grande poesia, cabe a tarefa de qualificar a sua grandeza, sugerindo com isso certa singularidade da voz poética. Um aspecto forte de tal singularidade será certamente o feitio clássico predominante nos versos de Dante Milano, a impressão de um equilíbrio harmônico a despeito da facilmente notável abundância de pares antitéticos nos poemas, como a treva e a luz, o concreto e o abstrato, o novo e o antigo. A atenuação dos contrastes particulariza na linguagem algo que se mostra fundamental para o próprio pensamento do poeta, a simultaneidade da atenção ao mundo material e da absorção em si mesmo que tende a interiorizar e a transfigurar os seres e as coisas. A resposta da poesia de Dante Milano à realidade do deslocamento do homem moderno parece compor-se nesse espaço intervalar cavado pela intimidade – a qual, sem se evadir por completo da vida objetiva, não deixa de reconhecer em relação a ela um radical distanciamento, nomeado em certos poemas como o exílio. Manifesta-se a natureza íntima desse exílio poético na voz baixa, na serenidade de tom própria do poeta capaz de relativizar a dor e evitar a expressão do desespero por confiar na profundidade da instância subjetiva em que o canto se instaura e, discretamente, perdura.

Não se trata de um apaziguamento do exílio subjetivo de Dante, mas de abertura em profundidade e amplidão, expressa em linguagem discreta, altiva, que denota confiança íntima na perenidade do canto e, talvez por isso, tranquilidade mesmo diante das realidades mais graves. Essa linguagem, diria Sérgio Buarque de Holanda, é o pensamento de Dante Milano, por cujo filtro passam todas as imagens dessa poesia – o que torna questionável qualquer dicotomia, seja ela mais ou menos rígida, que procure separar os poemas da concretude, de um lado, e os poemas da evanescência, de outro.

A analogia com a simultaneidade do contraponto musical pode se aplicar a muitos poemas, acenando com uma possibilidade de interpretação dos abundantes pares de opostos harmonizados na poesia de Dante. A simultaneidade formaliza, por assim dizer, um aspecto fundamental da atitude do sujeito poético diante do mundo – sendo marca constitutiva, portanto, dessa poesia. A expressão mar enxuto (da “Elegia de Orfeu”), por exemplo, implica ao mesmo tempo a memória do “mar” ecoando no pensamento e a consciência aguda da sua extinção; a absorção vertical na própria intimidade e a atenção às restrições do plano horizontal do presente.

Essa atitude do sujeito a meu ver singulariza o ‘exílio’ do poeta porque se consuma na sua linguagem, no seu feitio de aparência clássica, na atenuação das oposições violentas, na dicção limpa e sem exibição de virtuosismos.

 

Dez Poemas Selecionados

Soneto 1

Horizonte cerrado, baixo muro,
A névoa como uma montanha andando,
O céu molhado como mar escuro.
Por muito tempo ainda fiquei olhando
A terra transformada num monturo.
Por muito tempo ainda ficou ventando.
Cravei no espaço lívido o olhar duro
E vi a folha no ar gesticulando,
Ainda agarrada ao galho, antes do salto
No abismo, a debater-se contra o assalto
Do vento que estremece o mundo, e então
Sumir-se em meio àquele sobressalto,
Depois de muito sacudida no alto
E de muito arrastada pelo chão…

 

Soneto VII
(Na noite cor de sono, cor de sonho) 

Na noite cor de sono, cor de sonho,
Fulgurando na treva, um raio estronda,
Final do céu, divino mas medonho.
E uma mulher sem ter onde se esconda,
Os cabelos desfeitos, aparece
E em meus braços se atira. Então, absorto,
Vi que o corpo, quando ama, desfalece,
Vi que o rosto, ao beijar, parece morto.
Como se o beijo os lábios lhe torcesse,
A boca toma a forma de um sorriso
Que se contrai, como se o beijo doesse.
Visões do amor, possuídas mas incertas.
O corpo se entregou, mas indeciso,
E deixou-se cair de mãos abertas.

 

Elegia a Lígia

Lígia, teu nome de elegia
Te dá ao corpo moço um ar antigo
E cria em meu ouvido lento ritmo
Que me arrasta o absorto espírito
Para o verso e sua inútil tortura.
Torso de ânfora esguia!
Só o que amou deveras um quadro, um vaso, um objeto precioso,
Pode sentir o relevo suave do teu ventre,
Corpo de mulher,
Forma antiga e novíssima.

Perdoa aos poetas que te desnudam, te divinizam, te prostituem.
Em meus versos inteira te possuo.
Que importa a fêmea que se nega?
Transformada em poema,
Amo-te ainda mais!
Ajoelho agarrado a teus joelhos,
Não com palavras de fé
Mas impudente e irreverente
Profanando, mas adorando
A tua imagem desfigurada.

 

Música surda

Como num louco mar, tudo naufraga.
A luz do mundo é como a de um farol
Na névoa. E a vida assim é coisa vaga.

O tempo se desfaz em cinza fria,
E da ampulheta milenar do sol
Escorre em poeira a luz de mais um dia.

Cego, surdo, mortal encantamento.
A luz do mundo é como a de um farol…
Oh, paisagem do imenso esquecimento.

 

Descobrimento da Poesia

Quero escrever sem pensar.
Que um verso consolador
Venha vindo impressentido
Como o princípio do amor.

Quero escrever sem saber,
Sem saber o que dizer,
Quero escrever urna coisa
Que não se possa entender,

Mas que tenha um ar de graça,
De pureza, de inocência,
De doçura na desgraça,
De descanso na inconsciência.

Sinto que a arte já me cansa
E só me resta a esperança
De me esquecer do que sou
E tornar a ser criança.

 

A Ponte

O desenho da ponte é justo e firme, calmo e exato.
Nada poderá perturbar as suas linhas definitivas.
A sua arquitetura equilibra-se no ar
Como um navio na água, uma nuvem no espaço.
Embaixo da ponte há ondas e sombras.
Os mendigos dormem enrodilhados nos cantos.
Não têm forma humana. São sacos no chão.
Por momentos parece ouvir-se o choro de uma criança.
A água embaixo é suja,
O óleo coagula, em nódoas luminosas, reflexos lacrimejantes.
Um vulto debruçado sobre as águas
Contempla o mundo náufrago.
A tristeza cai da ponte
Como a poesia cai do céu.
O homem está embaixo aparando as migalhas do infinito.

A ponte é sombria como as prisões.
Os que andam sobre a ponte
Sentem os pés puxados para o abismo.
Ali tudo é iminente e irreparável,
Dali se vê a ameaça que paira.
A ponte é um navio ancorado.
Ali repousam os fatigados,
Ouvindo o som das águas, a queixa infindável,
Infindável, infindável…
Um apito dá gritos
A princípio crescendo em uivos, depois mantendo bem alto o apelo desesperado.
Passam navios. Tiros. Trovões.
Quando virá o fim do mundo?
Por cima da ponte se cruzam
Reflexos de fogo, relâmpagos súbitos, misteriosos sinais.
Que combinam entre si os astros, inimigos da Terra ?
Quando virá o fim dos homens ?
A ponte pensa…

 

Praia deserta

Estar só, numa praia deserta.

Ter diante dos olhos uma paisagem eterna,

Pisar na orla de espuma.
Tocar com as mãos num rochedo.

Ver a tarde cair no mar imóvel
Sob o domínio de uma estrela azul.

Ficar parado, contemplando o espaço!

Olhar as estrelas, deitado na areia…

Dormir debaixo da lua,
No chão do mundo.

 

Princípio da Noite

Eu ia em mim perdido, em mim pensando.
A existência deserta.
A rua escura.

Eu sentia a tristeza dos felizes
Vendo a estrela da tarde rir sozinha…

Em que altura ela estava!
O resto era imenso.

Tudo é exílio.

 

Salmo perdido

Creio num deus moderno,
Um deus sem piedade,
Um deus moderno, deus de guerra e não de paz.

Deus dos que matam, não dos que morrem,
Dos vitoriosos, não dos vencidos.
Deus da glória profana e dos falsos profetas.

O mundo não é mais a paisagem antiga,
A paisagem sagrada.

Cidades vertiginosas, edifícios a pique,
Torres, pontes, mastros, luzes, fios, apitos, sinais.
Sonhamos tanto que o mundo não nos reconhece mais,
As aves, os montes, as nuvens não nos reconhecem mais,
Deus não nos reconhece mais.

 

Paisagem
Talvez um fauno de expressão selvagem
Atormentado de uma dor lasciva
Por um aroma que passou na aragem,
Uma ninfa cor de água fugitiva.
Mais do que na memória evocativa
Esses seres existem na paisagem.
Algum fauno de outrora ainda se esgueira
Entre sombras e troncos, à procura
De uma nudez, e olha, tateia, cheira
Um vestígio de carne, sonho e alma…
Que desejos cruéis, quanta tortura
Nesta paisagem luminosa e calma.

Alexandre Koji

Alexandre Koji Shiguehara

Paulistano, nascido em 1974, é doutor em Literatura Brasileira (2016) pela USP, com a tese Exílio íntimo: leitura da poesia de Dante Milano. É também autor de Ao longo do rio: João Cabral e três poemas do Capibaribe (Hedra, 2010), livro concebido a partir de sua dissertação de mestrado, defendida na mesma instituição.

Atualmente é funcionário da Representação Regional da Funarte (Fundação Nacional de Artes) em São Paulo.