5 POEMAS TRADUZIDOS POR DAVI ARAÚJO

Frank O’Hara
POEMA

Suponha que aquela árvore gris, tão nua
e desesperada,
comece a valsar
lentamente no tempo para algo a que nós
somos surdos na espessante neve.

Estaria ela meramente tentando ficar
quente e verdadeira,
como parece que alguém
faz enquanto dança,
ou isso seria
um convite desde o inanimado
mundo de que nossos ossos,
tentando não doer
com pressentimento, pareciam nos advertir
na primeira infância?

Então, desesclarecidos pelo desejo e
satisfeitos por sonhos muito reais, nós
fomos capazes brevemente,
como se de uma janela,
de olhar bravamente para a barroca vontade
dos objetos,
não sabendo, em nosso esperto
sorriso,
quem realmente sentiu o frio.

 

Stefano Dal Bianco
O SONHO

Acabo de ter um sonho velocíssimo,
de um átimo,
que não recordo que coisa fosse exatamente,
ou mais que um sonho era uma imagem…

Sei somente que eu me despertei
súbito com a intenção de fixá-lo,
capturá-lo no papel

e agora estou aqui com a caneta
e o sonho se foi embora com o sono
talvez para Laura que dorme aqui ao lado,
ou com qualquer um, atravessando as paredes,
ao piso de cima ou de baixo:

sinal que não era um sonho
rigorosamente meu, era,
provavelmente, um sonho verdadeiro.

 

Peter Handke
INFORMAÇÃO DE TRENS

“Eu quero ir para Stock.”

Você sai no trem expresso às 06h02min.
O trem chega a Alst às 08h51min.
Você baldeia e toma o trem expresso para Teist.
O trem parte de Alst às 09h17min.
Não vai com eles até Teist, mas desce em Benz.
O trem chega a Benz às 10h33min.
Você baldeia em Benz e toma o expresso para Eifa com vagão direto para Wössen.
O trem expresso para Eifa sai às 10h38min.
O vagão direto se desconecta em Aprath e se atrela ao trem expresso Uchte-Alzenz.
O trem sai de Aprath às 12h12min.
Desde Emmen, o trem viaja como trem local.
Você não vai até Wössen, então desce em Bleckmar.
O trem está em Bleckmar às 13h14min.
Em Bleckmar você pode dar uma volta até 15h23min.
Às 15h23min sai o trem local de Bleckmar a Schee
(este trem não circula nos dias 24 e 25/12 e só aos domingos tem 1ª classe).
Ele chega a Schee-Sul às 16h59min.
O ferry para Schee-Norte sai às 17h05min
(com tempestade, neblina ou motivos de força maior se pode suspender a circulação dos ferries).
Você chega a Schee-Norte às 17h20min.
Às 17h24min, da estação de Schee-Norte, parte o trem de passageiros até Sandplacken.
(Esse trem possui apenas 2ª classe e só circula em dias úteis e aos sábados de comércio aberto)
Você salta em Murnau.
O trem chega a Murnau aproximadamente às 19h30min.
Da mesma plataforma, às 21h12min, parte um trem de passageiros e de carga para continuar até Hützel
(em Murnau há uma sala de espera).
Você estará em Hützel às 22h33min (estas indicações se fazem sem garantia).
Como o transporte de passageiros de Hützel para Krün foi suspenso, você toma o ônibus da ferrovia que sai da frente da estação. (sem garantia)
Ele te deixa em Vach a 1 hora.
O primeiro ônibus sai de Vach às 6h15
(em Vach não há aluguel de carros).
Você chega a Eisal às 08h09min.
O ônibus das 8h10 de Eisal a Weiden não opera durante os feriados escolares.
Ele chega a Weiden às 08h50min.
Às 13 horas sai de Weiden o ônibus de uma empresa privada, que, via Möllen-Forst-Ohle, leva à Schray.
(Até Schray e Ohle o ônibus segue apenas em caso de demanda)
Você estará em Schray às 14h50min.
Entre Schray e Trompet há um carro leiteiro por essa hora, que também transporta pessoas se necessário.
Em Trompet você deve chegar ao redor das 16 horas.
Não há comunicação motorizada entre Trompet e Stock.
Você pode chegar a pé a Stock por volta das 17h30min.

“No inverno será então novamente escuro?”
“No inverno será então novamente escuro.”

 

Olga Orozco
DETRÁS DAQUELA PORTA

Em algum lugar do grande muro inconcluso está a porta,
aquela que não abriste
e que lança sua sombra de guardiã implacável no revés
de todo teu destino.
É tão só uma porta fechada em nome do azar,
mas tem a cor da inclemência
e semelha uma lápide onde se inscreve a cada passo o impossível.
Acaso agora cruza com uma melodia incomparável
contra o ouvido de teu ontem,
acaso resplandeça como um ídolo de ouro
polido pelas cinzas do adeus,
acaso a cada noite esteja a ponto de se abrir na parede final
do mesmo sonho
e meças seu poder contra tuas ligaduras
como um desditado Ulisses.
É tão só um engano,
uma fabulação do vento entre os interstícios duma história baldia,
refrações falazes que surgem do olvido
quando o roça a nostalgia.
Essa porta não se abre para nenhum retorno;
não guarda nenhum molde intacto sob o pálido raio da ausência.
Não regresse então como quem ao final de uma viagem errônea
– cada etapa um espelho equivocado que te subtraiu o mundo –
descobrisses o lugar onde perdeste a chave e trocaste
por um nome confuso a consignação.
Acaso cada passo que deste não mudou, como em um xadrez,
a relação secreta entre as peças
que traçaram o mapa de toda a partida?
Não te acerque então com tua oferenda de terras arrasadas,
com teu cofre de brasas convertidas em pedras de expiação;
não transforme teus outros precários paraísos
em páramos e exílios,
porque também, também serão um dia o muro e a saudade.
Essa porta é sentença de chumbo; não é pergunta.
Se consegues passar,
encontrarás detrás, uma atrás da outra, as portas que elegeste.

 

Jean-Joseph Rabearivelo
OS TRÊS PÁSSAROS

O pássaro de ferro, o pássaro de aço,
após dilacerar as nuvens da manhã
e ter desejado bicar as estrelas
mais além do dia,
descende como arrepeso
a uma caverna artificial.
O pássaro de carne, o pássaro de plumas
que escava um túnel através do vento
para conseguir chegar à lua que viu em febre
entre as ramagens,
tomba ao mesmo tempo em que a tarde
em um dédalo de folhagem.
Aquele que é imaterial, espectro,
encanta o guardião do crânio
com seu canto balbuciante,
depois abre as asas ressonantes
e vai pacificar o espaço
para não voltar senão eterno.

Do livro “Do silêncio ao céu”, no prelo, de Davi Araujo.

DAVI ARAÚJO

Nascido em 1979 à cidade de São Paulo, no Brasil. Estudou Publicidade, História e Jornalismo, e trabalha como tradutor, redator e revisor de textos. Mora em Sorocaba desde 2014, onde gere a Felina Oficina, sua casateliê. Autor de Livro Ruído (Eucleia, 2011), poemário publicado em Portugal, e das prosas poéticas de Ficções paralelas e Visões para lê-las (obra inédita), traduziu Natureza, de R.W. Emerson, e Caminhada, de H.D. Thoreau (Dracaena, 2010), e poemas esparsos disseminados pelas redes sociais. Tem poemas publicados em Mallarmargens, na qual é colaborador, além das revistas TriploV, Cronópios, Germina, DiversosAfins, Raimundo, Macondo, 7faces, Brasiliana, Ellenismos,Aedoscuritibanos, Oficina.Casulo e Pó&Teias; nas antologias Asfalto, Vinagre e Poema de Mil Faces; e também em seus blogs Não Fique São e Transatravés.