VOCÊ ESTÁ DIFERENTE

Devo ter me instruído na ciência da submissão,

executo ordens – pomposamente – e o mal é aceitar que venham de qualquer um: apenas obedeço,

antes encarnava revoltas, preferia trajetos encompridados, sem conceber atalhos, porque já havia a insônia e o dever de me ocupar com algo além de mim mesma, e meu cérebro, autômato, preguiçoso de raciocínios,

hoje, talvez melhor, consiga umas três ou tanto mais horas de sono, até que uma época meu corpo domou, com sua violência, o chacal que vez por outra ronronava em meu espírito febril,

me conquistou e, dali a pouco, estava de novo reduzida, expulsando silenciosamente em golfadas turbulentas as misérias que não me fizeram sofrer além da antipatia e da arrogância, tão intelectualizada e frenética com o cotidiano e sei, não devemos escorraçar os nossos males ou ignorá-los, pois eles têm a importância de nos humanizar,

gostou da penúria, e tudo para mim passava a ter um sentido alterado, porém lógico, o de negar, o de recusar comidas,

 

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Comer

O destino de quem ama é comer a pessoa amada? A mulher só pode ser comida intra vas ou pelo outro pasto, pela boceta ou pelo cu? Eu acreditava nessa pobre limitação, no sentido mais rudimentar da palavra comer, até encontrar Adriana.

Estávamos numa excursão na Inglaterra. Sentada a meu lado no ônibus, uma hora ela murmurou as palavras liver, pool, fígado piscina, e riu. Começamos a conversar e falei que os antigos consideravam o fígado a sede da vitalidade, daí que Jung interpretou Liverpool como lago da vida. Ela perguntou se eu era médico e respondi que sim.

No dia seguinte tomamos café da manhã juntos, ovos, feijão, bacon, o clássico desjejum britânico. À noite fomos para seu quarto.

Comer, tanto no sentido nutritivo quanto no amoroso, subentende-se assimilar, porém nenhum homem compreende isso até que esteja amando. A verdade é que ninguém entende nada sobre o amor e sua inesgotável urdidura de avanços e recuos, perguntas e respostas, assimilações e dejeções.

Adriana permaneceu na cama depois do sexo e perguntou qual era minha especialidade. Eu não disse na hora e menti que era endocrinologista. Fiquei observando seu corpo exibido em decúbito lateral. Adriana era bela como uma égua recém-saída do estábulo e dada ao sol da manhã.

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