Uma Viagem sentimental

Primeira Carta

 por Eusébio Mattos

 

Meu sempre querido Thomas

 Sinto muita saudade daí, dos escuros que aí estão e que, sei bem, trouxe-os por perversão comigo. Nossa querida San Paolo, esta cidade da escuridão múltipla, que se esconde por trás de velhas árvores de parques oxidados; ou que simplesmente brota, uma aparição sem épica de algum cruzamento da Avenida Paulista. Aqui, anda-se pela zona Sul toda do Rio em uma longa alameda sem árvores, todas as ruas parecem uma única e extensa avenida, uma desembocando em outra, indolor; e há luzes alheiamente acesas vinte e quatro horas, mesmo que numa placa rosa-azulada do plano de saúde, irradiando o seu discurso de uma fatuidade sedutora. A sombra pede licença para colar na parede seu grafitti flutuante, e ela não se aninha, nem tem paz, em lugar algum – nem nos casarões decadentes que o Rio conserva conscienciosamente decadentes, que viram puteiros baratos e que em São Paulo chama-se de “vintão”, nem nas decorativas casas de samba para a classe-média; tampouco ainda numa quarta-feira de cinzas (mas de euforia ainda acesa) a sombra sossega, e isso por uma razão bem simples: o sentimento da morte, o pesado coroar-se de louros com alguma Grécia que o sentido da destruição extrema (da finitude) dá ao paulista, e mais ainda ao europeu (e, indiretamente, de forma não consciente e, portanto, sem nenhuma dimensão trágica mais ampla que valha à pena ser vista) – mesmo assim ele torna-se uma dor desconfiada em você, homem da Metrópole Opaca, tingindo certa discreta olheira regada a antidepressivos às sete horas da manhã ao acordar na Zona Oeste.  Isto tudo desconhece o carioca por completo, pois que se entregara, ingenuamente até, ao gozo leve da luz já de antemão, o coser de alegria com alegria, ainda que cristal não seja, fazendo desta forma, dada a éticas dolorosas, uma melancolia, uma fada aquática e obsessiva, guardada submersa para que nos momentos do caos aconselhe o carioca com sua ária de cinzas – pois ela, a tristeza-pathos, não há de azedar com o seu “caô” (ah, como se usa esta palavra por aqui, querido, mesmo que como interjeição fúnebre…!) a luz perpétua e o imóvel sorriso de aceitação das terras cariocas, sempre já de antemão sorrindo em off antes do sorriso às claras.

Estive ontem no Centro do Rio para pagar as contas e o aluguel: o Centro é um mesmo quarteirão com um sinal verde quebrado, dois pedintes discutindo com compenetrada efusividade sobre o Fluminense, e uma mesma brisa morna, que só se move, se digna a movimentar-se porque você se desloca contra ela. É o mesmo quarteirão multiplicado por dez, por cem, por duzentos, de modo que o olhar não se perde na análise exaustiva dos contrastes, nem na procura da solução sensorial adequada para o que se observa. São Paulo é um típico perverso polimorfo enquanto Polis, e há tantos dialetos e reentrâncias de bairro a bairro, que o resultado final é uma mudez vencida, enorme e cansada, que o visitante desavisado confunde com “urgência”, quando não passa de pura necessidade de conexão. Passeamos em São Paulo a cálculos trotantes, como quem desenha mentalmente um mapa para andar de novo no dia seguinte como que em transe, e assim em sucessão, num labirinto de transitar e transitar. 

Você me pede para que fale dos hábitos daqui, dos “sotaques destes hábitos” – gostei da expressão, “sotaques de hábitos”. Bem, Thomas, temo crer que o carioca médio tenha perdido sua capacidade de matizes imperiais, quiçá um tanto de salão, para a existência agora de um tipo de maneirismo existencial, e tudo virou derramamento de afeto ou brutalidade abrupta, sem meandros mediadores entre os dois lados. E o estrangeiro reativo, de todo flanêur e ávido de vida que sou, percebe isso logo ao quase ser derrubado pelo senhor de lenço no pescoço que tenta subir com ele ao mesmo tempo e espaço no ônibus e depois se desculpa, sem humor, evocando uma civilidade passadista que ele já esqueceu há uns sessenta anos. E há, de novo, a presença suja de areia iluminista, o par imperfeito da Melancolia que quase esbocei no que escrevi antes, a “Deusa-Razão” (ratio, análise, auto-análise?) daqui, a Euforia. Ela está colada ao “modus demens” carioca: é sua bermuda vinho com dragões com detalhes dourados, seus três “garotinhos” (como se chama o chope servido em copos pequenos, aqui) sorvidos em meio a planos irrealizáveis de revitalização do Centro Velho, sua insaciável noite de samba nas calçadas do Lido, sua prontidão em chamas de espírito… O carioca típico responde rápido a um gesto seu, agita-se, seu espírito ultra subjetivo, mas paradoxalmente superficial, é sempre um ziguezague de dialéticas imprevisíveis. Isso contrasta com a fleuma perpetuamente desiludida do paulista, seu eterno trânsito para um objetivo (o paulista típico sempre sabe aonde vai, eis nossa pedra de Sísifo!) e olhos fitando seus rezados – e diariamente – “métodos”. Mas ocorre que a melancolia, para o homem do Spleen domesticado e, com sutileza, também domesticável, que é o paulista (e seu subtipo cinza, o paulistano) é uma das cobertas de lã Matarazzo, a mais paradoxalmente quente, que o sujeito usa para se aquecer nas madrugadas frias do Sumaré. Em outras palavras, a “bile negra” é uma característica que tinge de um humor arredio e de indiferença o caráter paulista, e se faz sempre presente de uma forma ou de outra, como a nublar um excesso mal quisto, para ele, de expansão social e afetiva. No Rio, a melancolia quando chamada (melhor seria dizê-lo, Thomas, quando “possuidora”, no sentido mesmo de “tomar de assalto a alma” e “estar possesso”) é violenta, de misterioso golpe, e beira por vezes o intolerável. Camus já notara o caráter sádico do carioca, aliás; e não é o sadismo ele mesmo, afinal de contas, um gosto “amoroso” pelo destruído, ou o em vias de? Da insignificante cruz daqui que “lembra” o genocídio da Candelária, à Torquato Neto asfixiado após sua noitada de aniversário, e Assis Valente, com seu guaraná com formicida, a ver um playground à sua frente e cantando “Anoiteceu, o sino gemeu…”, num possível réquiem para si mesmo, até Ana Cristina César em seu voo para o inferno, de andares e olhares acima, (como diz o Chico Buarque numa canção, “moças feito passarinho, avoando de edifícios”) a melancolia – o anjo de asas sussurrantes das falsas promessas da Morte – “dói” mais, muito mais no Rio, por ser inexplicável quando “baixa”, como um “santo”, e corrói o entendimento porque, se manifestada, dissipa num só golpe de bisturi sem método toda a atmosfera ciclonicamente hipertímica que tão ostensivamente a precedeu. 

Assim, diante deste pugilato de Tanatos, dá pra se dizer que se São Paulo é o Purgatório, Rio é o Inferno. Não se tem prazer algum numa antessala de espera, ou seja, no Purgatório: aguarda-se ou pelo pior, ou pela redenção de tudo, portanto o clima predominante é a angústia tensiva. Eis a São Paulo das purgações. No Rio, a saída erótica, embora pouco refinada e decididamente animal, ainda se dá: em se sendo sadomasoquista, no Inferno carioca pode se gozar, subterraneamente.

 Pergunta-me sobre as mulheres daqui, sobre minhas recaídas heterossexuais, e eu rio alto. Pois bem, estive, por curiosidade indomável, também, em Vila Mimosa, uma Augusta sem saneamento básico, e fiquei com a impressão de que, em Sampa, até as putas tem que ser cortejadas. Ao que parece, a “prestadora de serviços” sexuais no Rio se compraz em ter uma libido tão à sua disposição, tão exercitada, que diz orgulhosa “gozar quando e com quem quiser”, chegando a trazer a arte do pompoarismo inata – e fala dela com orgulho e nobreza, como se comenta de uma faculdade do espírito, um dom para a música ou para as ciências.

……

Robert Creeley, um dos poetas da Montanha Negra, escreveu certa vez, em tradução de Régis Bonvicino:

“Exceto meus filhos

Treinados para o amor

E que sobreviverão a mim

Como relíquias de minhas intenções”

Faz vinte anos, mais ou menos, que o Amor morreu, Thomas, e eu já lhe disse isso antes, não sem certa insistência triste. Hoje, pela manhã, quando a garota do café barato e delicioso das dez horas que se serve no Ibbis, e que se ocupava da cesta de pães sorriu sutilmente entregue para mim, isso não era Amor, mas a lembrança do que poderia ser ele. É assim que os seres com a sensibilidade erótica ainda sutilizada podem sorrir hoje: sorrir “um desejo num objeto” já desprendido do seu desejo, sorrir num sonho sabido de vapores de narguilê e, ainda tomado do desejo de nunca concretizar Amor, sorrir para si mesmo como quem se ri de uma antiga brincadeira preferida, que uma agora a muito antiga infância soterrou. O Amor hoje sorri urnas gregas – sim, ainda belas todas elas, mas urnas e mortas.

Aqui me despeço de você, querido, esperando logo que me venha visitar aqui na Gomes da Costa, onde no “Lagosta” o melhor “à piemontesa” é feito no Rio.

 

Do seu visigodo com inveja de Roma,

 

Eusébio de Mattos.

Eusébio de Mattos (Anziolli), Vila Mariana, SP, (1962), formou-se em Filosofia pela PUC de São Paulo, e concluiu seus estudos em Literatura Comparada pela Université Lyon 2. Participou de movimentos neo-contraculturas e escreveu para várias revistas literárias do Brasil, França e Bélgica. Trabalhou no Instituto Grécia-Brasil como Gestor de Projetos Culturais. Tradutor e ensaísta, foi responsável por transcriações de Anacreonte, Paul Celan e Píndaro. Faleceu de Aids, em 2008, de uma pneumonia que o acometeu enquanto viajava pelos Pirineus. Publicou apenas dois livros autorais em vida: “Uma Viagem Sentimental (2005)”, prosa descritiva de acentuado tom autobiográfico, e o livro de poemas “Dos Ópios (2007)”, que lhe valeu elogios de parte da crítica literária paulista.