OS DIFÍCEIS DESVIOS

E O OFÍCIO DE TRADUÇÃO

EM WALTER BENJAMIN

Por Luciano Garcez

Arte do desvio, ofício de ter um ideal (língua alvo) não idealizado. Para Benjamim, nenhuma obra é válida por relação, por relacionar-se com o receptor, posto que está em estado de imácula muda, intocável – dizente, mas não autoexplicativa.

Lago que se contempla em meio à clareira escura da floresta, cuja única tradução possível seria criar veios na terra – rios, vasos comunicantes – para que um outro lago possa ser “erigido”, como um vaso quebrado e recomposto, numa outra clareira – e que, culturalmente, pode muito comumente não ser escura, nem tão sombria quanto o original, ou mesmo nem em meio à uma floresta estar.

Porque o essencial para o lago-poema “não é a comunicação, a declaração”[1], nem mesmo é o possível. Posto o poema ser escapadiço no que tem de íntimo e estruturante, quando todas as visões o observam, mas nunca chegam a absorvê-lo. Por isso, pode-se tomar do poema original algo que não é essencial, uma partícula (que pode ser deveras interessante, porém) pelo todo, e simplesmente transformar um ato transpositivo/criativo numa experiência gorada. Benjamin: “uma marca da má tradução, que se pode definir como uma transmissão deficiente de um conteúdo que não é essencial”[2].

Tradução, para Benjamin, é “forma”: nela reside o segredo de sua dupli-trepli- quadruplicação, em outros desdobramentos linguísticos, de outras línguas, em outras culturas e tempos. Não seria a compreensão exata dos contornos, fundos e luzes de uma imagem uma condição unívoca para o seu bom reflexo especular? Imagem melhor vista, imagem melhor refletida no depois – porque já sabendo de sua “ossatura”.

Assim, pergunta o autor, “a traduzibilidade das formas literárias deve ser considerada, mesmo que sejam intraduzíveis até um certo ponto[3]?”, e a esta questão central nos trabalhos de tradução o mesmo autor responde obliquamente, notando que certas obras são, de fato, intraduzíveis para os leitores. De “certas obras”, diga-se bem, porque há aquelas cuja “traduzibilidade” jaz na sua própria essência.

Porque a vida deve ser entendida pelo âmbito abarcante da história, e partindo dela, a sobrevivência (ou o sobrevoo estético/dizente) das obras literárias pelos tempos ruptos do Tempo é mais fácil de ser percebida do que a vida dos seres humanos, persistindo a obra nas gerações vindouras como uma voz possante e simbólica que a história respalda em significação e a forma se mantém em equilíbrio – a forma da obra, diga-se bem. Por isso, o papel do tradutor como aquele que, no estender sincrônico do tempo, cria a existência diacrônica da obra: o que ela foi, ela então, será.

E a obra, inserida na vida histórica que está, se alimentará não exatamente da vida ou de seus fenômenos, mas da expressão de sua essência, da “representação de sua significação[4]”. A ideia de renovação cabe aqui, como Benjamin aponta, ao falar do papel da tradução: a vida ida da obra original encontra sua imagem viva no seu habitat posterior, com todas as tintas que o tempo de então lhe oferecerá. E na continuidade do vital, o original transmutar-se-á.

E a tradução nos aparece, então, como o contato real e desimpedido entre as línguas, sua relação real, mesmo que seja “impossível revelar, impossível produzir esta mesma relação oculta, pode-se, porém, representá-la, atualizando-a embrionariamente e intensivamente[5]” (grifo nosso).

Mas a obra originária também pode sofrer a ação do tempo, por ela mesma – o que era novo queda-se arcaico ou até mesmo um clichê, a posteriori. E o autor encontra o parentesco entre as duas línguas envolvidas na tradução não no dado histórico, mas no fato de que “qualquer parentesco supra-histórico consiste (…) em que em cada uma delas – das línguas – se pretender dizer o mesmo” (grifo nosso). Fato só alcançável pela totalidade das intenções de ambas, no que Benjamin chamará de “língua pura”, ou o que poderíamos instalar mais pragmaticamente no curso tensivo resultante entre o “querer dizer” e o que “se quis dizer”, na definição do próprio.

Não há solução para o estranhamento das línguas, entretanto, e por tal coisa, o tradutor deve resignar-se a ter em mãos sempre um material: 1. provável, 2. contingente, 3. variável e 4. frágil (no sentido de não possuir um status intrínseco intocável). E a tradução transpõe, de forma imprevista, o original para um “domínio da língua mais definitivo”[6], onde o mesmo pode ser elevado – ascender ao ressignificar-se – de novo.

E, por definição completa, Benjamin define a tarefa do tradutor, em meio de seu condensado ensaio, dizendo que “ela consiste em encontrar, na língua em que se faz a tradução, a intenção a partir da qual se ressuscita nessa língua original”[7]. A “intenção” é a busca própria do tradutor e que se dá por fora “da floresta da língua” (ao contrário da poesia, que nascerá no interior da mata verbal), buscando que o eco dessa matéria prima dê vida à forma símile em língua estrangeira.

E a forma do original deve ser pensada e pesada com calma, para que a mesma não nos sobressalte com sua imponência, engenho ou beleza. A fidelidade na reconstrução formal dificulta o ressurgimento do sentido original, sendo “a exigência de literalidade não (…) deduzível do interesse pela preservação do sentido[8]”. A metáfora central usada por Benjamin em seu ensaio, a do vaso partido no original e recomposto (mais precisamente, reconstruído/colado) na língua alvo como sendo o ideal de toda tradução, leva ainda consigo os contornos da imprecisão: nenhum caco (palavra, rima, etc.) é exatamente algo exato em recomposição num outro solo, em outro “vaso em pré-forma”, numa diversa “forma-semelhante”. Tornam-se ambos os mesmos cacos em uma língua ampla (a língua pura) somente quando a tradução se realiza com maestria e uma certa naturalidade “amorosa”, segundo Benjamin.

E o incomunicável é uma constante – quiçá mesmo o grande contorno não-transponível que circunda o dizível, ou o claramente lido – em todas as línguas, na forma de um Simbolizante ou de um Simbolizado. E transgredir essas posições fixas, de imagem e espelho, ao ponto em que o espelho seja ele mesmo um próprio espelho-imagem, eis uma proposição em forma de desafio feita pelo autor. E para que isso se dê concretamente, qual seria a “liberdade da tradução” – qual o seu tamanho, domínio, por onde ela entrará na voz outra (originária) e até que ponto? Submetendo a “língua pura” – dir-se-ia, adaptando-se – à sua própria língua, eliminando dela o que há de velho, inerte e que, por isso, jaz ineficaz. E a língua alvo deve ser, também e por isso, “contaminada”, “recolorida” e “ressonorizada” pelas línguas originais, fazendo-a submergir profundamente nas novas significações que as línguas fontes gritam.

E nas traduções do grego feitas por Hölderlin, poeta alemão mas de pés helênicos, em especial as de Sófocles e Píndaro, há como que um advertência final feita pelo autor ao tradutor, um senão em forma de metáfora: “o tremendo e originário perigo de toda tradução: que os portões de uma língua tão alargada e bem dominada acabem por se fechar, encerrando o tradutor no seu silêncio (grifo nosso) [9]”.

O “seu silêncio” – uma verdadeira anedonia significadora – pode, no entanto, ser partido, como que desencantado, quando “língua” e “revelação”, “liberdade” e literalidade”, se reúnem na forma de uma versão interlinear – que poderíamos chamar de “condição de ponte”: onde as informações mais sutis de uma língua passam para a outra, em um movimento de mão dupla e que, por isso, sustenta a leitura do objeto final sem cessar. Como no texto sagrado, modelo/imagem tradutória modelar para Benjamin, que contêm (sempre) em suas linhas a sua “tradução virtual” – já a olhar para além si, o texto sagrado, como que querendo sair do próprio “corpo” e transbordar em todas as línguas, porque escrito com a intenção de ser ponte entre homens e além-homens.

[1] in WALTER BENJAMIN, “A TAREFA DO TRADUTOR”, Trad. de Maria Filomena Molder.

[2] Idem.

[3] Idem.

[4] Idem.

[5] Idem.

[6] Idem.

[7] Idem.

[8] Idem.

[9] ?