Nota do Editor

Por Anderson Lucarezi

Um livro é uma garrafa no mar. Dependendo dos movimentos das águas, alcança esta ou aquela costa. Foi assim que a obra da qual o trecho a seguir foi extraído chegou aos olhos de um dos editores desta revista. Tendo sido, nos anos de 1980, adotado como leitura para o curso de língua portuguesa ministrado por Roberto Bicelli, poeta que participa desta edição inaugural da revista, Alves & Cia (1925), publicação póstuma de Eça de Queiroz, funcionava como um contraponto a Dom Casmurro. Enquanto o livro de Machado de Assis apresenta uma atmosfera repleta de rancor, a novela (ou pequeno romance) de Eça retrata a questão do adultério de forma mais leve e espirituosa, mas não menos humana. Apresentava-se aos alunos, dessa forma, duas faces da mesma moeda. A história desse contraste de livros interessou os editores, que resolveram pegar esta garrafa e lançá-la adiante, em outro mar, o digital. Fica, então, para aqueles que ainda não conhecem um dos trabalhos derradeiros do escritor português, o primeiro capítulo da obra.

 

Alves & Cia – Capítulo I

Nessa manhã, Godofredo da Conceição Alves, encalmado, soprando de ter vindo do Terreiro do Paço quase a correr, abria o batente de baetão verde, do seu escritório num entressolo da rua dos Douradores, quando o relógio de parede por cima da carteira do guarda-livros batia duas horas, naquele tom, cavo, a que os tetos baixos do entressolo davam uma sonoridade dolente, e cava. Godofredo parou, verificou o seu próprio relógio preso por uma corrente de cabelo sobre o colete branco, e não conteve um gesto de irritação vendo a sua manhã assim perdida, pelas repartições do Ministério da Marinha: e era sempre assim quando o seu negócio de comissões para o Ultramar o levava lá: apesar de ter um primo de sua mulher, diretor-geral, de escorregar de vez em quando uma placa na mão dos contínuos, de ter descontado a dois segundos oficiais letras de favor, eram sempre as mesmas dormentes esperas pelo ministro, um folhear eterno de papelada, hesitações, demoras, todo um trabalho irregular, rangente e desconjuntado de velha máquina meio desparafusada. — Sempre o mesmo encaranguejamento – exclamou ele, pousando o chapéu sobre a carteira do guarda-livros. – Dá vontade de os espicaçar como aos bois: Eh Ruço para diante! Eh Malhado! O guarda-livros, um moço de ar amarelado e doente, sorriu. Espalhou areia sobre a larga folha que acabava de escrever, e disse, sacudindo-a: — O sr. Machado deixou um bilhete lá dentro… diz que ia ao Lumiar. Então Godofredo, que limpava a testa com o lenço de seda, sorriu também, de leve, passando logo pelo bigode o lenço, escondendo o sorriso… Depois examinou a correspondência, que o guarda-livros continuava a polvilhar de areia. Um momento uma carroça, fora, atroou a rua estreita, com um ruído de ferragens sacudidas: depois tudo caiu num silêncio. Um caixeiro, agachado diante dum caixote enorme, escrevia um nome sobre a tampa. A pena de pato rangia, por cima o relógio batia um tic-tac forte. E naquele grande calor do dia, no abafamento dos tetos baixos, subia dos caixotes, de dois fardos, do pó da papelada, um cheiro vago de ranço, e de mercearia. O sr. Machado estava ontem em D. Maria – disse então o guarda-livros, sem cessar de escrever. Alves largou logo a carta que lia, interessado, com o olhar mais vivo:

— Que ia ontem? — O Trapeiro de Paris… — Que tal? O guarda-livros ergueu os olhos da carta para responder: — Eu gostei muito do Teodorico… Alves ainda ficou esperando algum outro detalhe, uma apreciação. Mas o guarda-livros retomara a pena, e ele recontinuou a sua leitura. Depois o trabalho do caixeiro agachado interessou-o um instante. Seguia o pincel, gozava as curvas das letras. — Ponha-lhe um til. Fabião tem um til… E, como o caixeiro se embaraçou um momento, ele próprio se abaixou, tomou o pincel, deu o seu til a Fabião. Fez ainda uma recomendação ao guarda-livros sobre uma remessa de baetão vermelho para Luanda e, empurrando outro batente verde, descendo dois degraus – porque naquele entressolo os pavimentos eram de níveis diferentes, penetrou enfim no seu gabinete, pôde desabotoar o colete, estender-se enfim numa poltrona de reps verde. Fora, um dia de julho abrasava, faiscava na pedra dos passeios: mas ali, naquele gabinete, onde nunca dava o sol, assombreado pelos altos prédios fronteiros, havia uma frescura; as persianas verdes estavam corridas fazendo uma penumbra; e o verniz das duas carteiras, a dele e a do seu sócio, a esteira que cobria o chão, o reps verde da cadeira bem escovado, uma moldura de ouro encaixilhando uma vista de Luanda, a alvura dum grande mapa, tinham um ar de arranjo, de ordem, que punha como um repouso, uma frescura maior. Havia, mesmo, um ramo de flores, que sua mulher, a boa Lulu, lhe tinha mandado havia dias – compadecida de o saber toda uma daquelas manhãs de calma, no abafamento dum escritório, sem uma cor de flor para alegrar os olhos. Ele tinha posto o ramo sobre a carteira do Machado. Mas, sem água, as flores murchavam. O batente verde abriu-se, o guarda-livros mostrou a face amarelada e doente: — O sr. Machado deixou alguma recomendação a respeito do vinho de Colares para o Cabo Verde? Então Alves lembrou-se da carta do sócio, que estava sobre a sua escrivaninha. Abriu-a; as duas primeiras linhas explicavam a ida ao Lumiar; depois, com efeito, começava, “a respeito do Colares…”. Alves deu a carta ao guarda-livros. O batente fechou-se de novo, e Alves agora tinha outra vez o sorriso de há pouco, mas que não disfarçava. Desde o começo do mês, era a quarta ou quinta vez que o Machado desaparecia assim do escritório, ora para ir ao Lumiar ver a mãe, ora mesmo, sem razões, ou com esta palavra vaga: “um negociozito”. E Alves sorria ainda, percebia bem o “negociozito”. Machado tinha vinte e seis anos; e era bonito moço, com o seu bigodito louro, o cabelo anelado, e o ar elegante. As mulheres gostavam dele. Desde que eram sócios, Alves conhecera-lhe três ligações: uma linda espanhola, que, apaixonada por ele, deixara um brasileiro rico, um antigo presidente de província, que lhe pusera casa; depois uma atriz de D. Maria, que não tinha nada senão uns bonitos olhos; e agora aquele “negociozito”. Mas estes amores decerto eram mais delicados, tomando um lugar maior no coração, na vida de Machado.. Alves sentia-o bem, por certo ar inquieto e preocupado do sócio, o quer que fosse de contrafeito, de triste por vezes…Também o Machado nunca lhe dissera nada, não mostrara jamais a mais leve tendência para uma efusão, uma confidência. Eram íntimos, Machado ia passar muitas noites à casa dele, tratava a Lulu quase como uma irmã, jantava lá todos os domingos mas –, ou porque tivesse entrado na firma comercial havia apenas três anos, ou porque era dez anos mais novo, ou porque Alves fora amigo de seu pai e um dos testamenteiros, ou porque era casado – Machado conservava para com ele uma certa reserva, um vago respeito, nunca entre eles se estabelecera uma verdadeira camaradagem de homens. Também Alves não lhe dizia nada. O “negociozito” não pertencia aos interesses da firma. Ele não tinha nada com isso. Apesar daquelas ausências repetidas, Machado continuava a ser muito trabalhador, amarrado à carteira dez e doze horas em dias de paquete, ativo, fino, vivendo todo para a prosperidade da firma: e Alves não podia deixar de confessar que se na firma ele representava a boa conduta, a honestidade doméstica, a vida regular, a seriedade de costumes – Machado representava a finura comercial, a energia, a decisão, as largas idéias, o faro do negócio… Ele, Godofredo, fora sempre de natureza indolente, como seu pai, que, por gosto, se movia duma sala para outra, numa cadeira de rodas… De resto, apesar dos seus princípios severos de rapaz educado a sério nos jesuítas, cheio de boas crenças, e que nunca antes de casado tivera uma ligação, ou um amor irregular, ele sentia pôr estas “tolices” do Machado uma vaga e simpática indulgência. Em primeiro lugar por amizade: conhecera o Machado pequeno, e bonito como um querubim; e nunca deixara de o impressionar vagamente a boa família do Machado, o seu tio conde de Vilar, as suas relações na sociedade, o caso que dele fazia dona Maria Forbes, que o convidava para as suas quintas-feiras – apesar de negociante -, e, além disso, as bonitas maneiras, e certos requintes de elegância: uma coisa que o espantava era que, como o Machado, ele nunca pudera ter aquele bom ar. E depois havia ainda uma outra razão, uma razão de temperamento, para que ele não deixasse de simpatizar, vagamente e a seu pesar, com as coisas do coração do Machado. É que, no fundo, aquele homem de trinta e sete anos, já um pouco calvo, apesar do seu bigode preto, era um pouco romanesco. Herdara aquilo da sua mãe, uma senhora magra, que tocava harpa, passava a vida a ler versos. Fora ela que lhe dera aquele nome ridículo de Godofredo. Mais tarde todo esse sentimentalismo que durante longos anos se dera às coisas literárias, aos luares, aos amores de romance, se voltara para Deus: tinha tido os começos duma monomania religiosa; a leitora de Lamartine tornara-se uma devota maníaca do Senhor dos Passos; fora ela que então o fizera educar nos jesuítas – e os seus últimos dias foram um longo terror do inferno. E ele herdara alguma coisa dela: em rapaz tivera toda a sorte de entusiasmos que se não fixavam, e que flutuavam indo dos versos de Garrett ao Coração de Jesus; depois, calmara, em seguida a uma febre tifóide, e quando veio a ocasião de tomar a casa de comissões de seu tio era um homem prático, usando a vida só pelo seu lado material e sério; mas ficara-lhe na alma um vago romantismo que não queria morrer: gostava de teatro, de dramalhões, de incidentes violentos. Lia muito romance. As grandes ações, as grandes paixões, exaltavam-no. Sentia-se por vezes capaz dum heroísmo, duma tragédia. Mas isto era vago, e movendo-se surdamente, e raramente, naquele fundo do coração onde ele os tinha prisioneiros. Sobretudo as paixões românticas interessavam-no: decerto não pensara nunca em lhes provar o mel ou fel: ele era um homem casto que amava a sua Lulu; mas gostava de as ver no teatro, nos livros. E agora aquele romance que ele sentia ali ao seu lado, no seu escritório, interessava-o: era como se os fardos, a papelada, ficassem melhor com aquele vago perfume de romance que exalava de si o Machado… De novo o batente verde abriu-se, a face amarelada do guarda-livros apareceu. Vinha restituir a carta do sr. Machado; e, antes de se retirar, disse, pela meia abertura da porta: — Hoje é a reunião geral da Transtagana. Alves então teve como uma surpresa: — Então… Então hoje são nove? — Hoje são nove. De resto sabia bem que eram nove. Mas é que a idéia da reunião anual da Transtagana trazia-lhe bruscamente a lembrança de que aquele era o aniversário do seu casamento. Durante os dois primeiros anos aquele fora um dia de festa íntima, com um bonito jantar a que ia a família, à noite uma pequena quadrilha, ao som de simples piano; depois, no terceiro aniversário, viera nos primeiros dias de luto de sua sogra, a casa estava ainda triste, Lulu ainda chorava – e agora, este dia passava, estava quase passado, sem que nem um nem outro se tivessem lembrado. Lulu não se lembrara decerto. Quando ele tinha saído era manhã, ela estava-se a pentear, não lhe dissera nada. E era uma pena que aquele belo dia passasse sem beberem uma garrafa de Porto, sem terem um crème à sobremesa. E além disso deveriam ter convidado seu sogro e sua cunhada – ainda que, ultimamente as relações com seu sogro tinham arrefecido, havia um afastamento, por causa duma criada nova, que era toda poderosa em casa do viúvo. Mas enfim, num dia daqueles, como num dia de anos, esqueciam-se essas coisas, o sentimento de família dominava. E então decidiu logo correr à rua de São Bento, lembrar a Lulu aquela grande data, mandarem um recado ao sogro – que morava a Santa Isabel. Eram quase três horas, a correspondência estava assinada, não havia nesse dia outros afazeres – naquela espécie de repouso que se seguia à azáfama dos dias de paquete para a África. E tomando o chapéu regozijava-se daquele meio feriado que assim se dava, alegrava-o a idéia de ir surpreender no meio do dia com um bom abraço a sua querida Lulu – que, durante toda a semana, estava só até às quatro e meia, que era quando se fechava o escritório. E uma só coisa o contrariava: é que o Machado estivesse no Lumiar, não pudesse vir jantar com eles. — Volta? – perguntou o guarda-livros, vendo-o de chapéu na cabeça. Godofredo pensou um momento em convidar o guarda-livros: mas depois temeu que o Machado se ofendesse, sabendo o seu talher tão facilmente preenchido. — Não volto… Se o sr. Machado por acaso aparecesse… Não é natural, mas enfim se aparecesse, que lá o esperamos às seis, como estava combinado. Ao descer as escadas sentia-se contente, como se tivesse casado na véspera. Era um desejo ardente de entrar em casa, por aquele calor, vestir o seu casaco de linho, pôr os pés nas chinelas, e ficar ali, esperando o jantar, gozando o seu interior, os movimentos, a presença da sua bonita Lulu. E, naquela onda de felicidade que o invadia, veio-lhe a boa idéia de levar um presente a Lulu. Pensou num leque. Mas depois decidiu-se logo por uma pulseira que vira havia dias, numa vidraça de ourives. Era uma serpente mordendo o rabo, com dois olhos de rubis. E este presente tinha uma significação: a serpente simbolizava a eterna continuidade, a volta regular dos dias felizes, alguma coisa que vai sempre girando num círculo de ouro. Somente receava que a joia fosse cara. Mas não: eram cinco libras, e, enquanto ele a examinava, o ourives disse-lhe que tinha vendido havia dias uma igual à sra. Marquesa de Lima. Imediatamente pagou-a – e ainda não tinha dado dois passos na rua, parou, à sombra, abriu a caixa, deu-lhe outro olhar, tão contente estava com a sua compra. E então vinha-lhe um enternecimento – como vem sempre aos que dão um presente. E como se uma pequena porta aberta, no egoísmo e na avareza natural do homem, fizesse romper através dela toda a onda expansiva das generosidades latentes. Naquele momento desejou ser rico para lhe dar um colar de brilhantes. Mas ela merecia-o. Eram casados há quatro anos, e nunca entre eles houvera uma nuvem. Desde que a vira naquela tarde em Pedrouços, adorara-a: mas, podia-o agora confessar, ao princípio tivera-lhe medo. Julgara-a imperiosa, orgulhosa, exigente, seca. Tudo por causa daquela bela estatura dela, dos seus belos olhos negros, do porte ereto, do cabelo ondeado e crespo… Mas não, dentro daquele corpo de rainha bárbara, havia o coraçãozinho duma criança. Era boa, era esmoler, era alegre, e tinha um gênio que corria igual e suave, como a superfície transparente dum rio de verão. Só um momento, havia coisa de quatro meses, ela mostrara certas desigualdades, um pouco de melancolia, uma pontinha de nervos: até ele supusera que… Mas não era isso, infelizmente. Eram nervos: e passaram – viera uma reação – e nunca como nos últimos tempos ela fora mais terna, mais alegre, inundando-o de felicidade… E tudo isso lhe bailava alegremente em volta do coração, enquanto subia, na calma ardente sob o seu guarda-sol, a rua Nova do Carmo. Ao alto, no restaurante do Mata, parou a encomendar uma empada de peixe para as seis horas. E comprou ainda um fiambre, olhava em redor para ver o que poderia levar mais, com alegria e a sofreguidão de pássaro que provê o seu ninho. Depois subiu o Chiado. Um momento parou a olhar, com respeito, um grande homem, um poeta, um historiador, um grande caráter, que nesse momento, com um velho casaco de lustrina e um chapéu de palha, conversava à porta do Bertrand, com o seu enorme lenço de ramagens preparado para se assoar. Godofredo admirava-lhe os romances, o estilo. Depois comprou charutos: ele não fumava; mas era para dar ao sogro depois do jantar. E desceu enfim a Calçada do Correio, que faiscava, sob o sol, poeirenta e seca. E apesar do calor caminhava depressa – de vez em quando apalpando a caixa da pulseira, que metera no bolso da sobrecasaca. Estava à rua de São Bento, alguns passos antes de sua casa, quando, dentro da confeitaria, viu a sua criada, a Margarida, esperando ao balcão. E então compreendeu logo que Lulu não se esquecera do dia da data feliz. A Margarida viera comprar doces, a sobremesa. Ele, em dois passos, entrou no seu portal. Era uma casa de dois andares, pintada de azul, apertada entre dois grandes prédios; ele ocupava o primeiro andar: e, apesar de não gostar dos vizinhos de cima, uma gente barulhenta, e ordinária de não querer fazer-lhes participar dos luxos que ele dava à sua entrada, a pedido da Lulu tinha ultimamente feito tapetar a escada . E não se arrependia: era agora sempre um prazer, o encontrar sob os pés, ao entrar em casa, aquele tapete desenrolando-se pelos degraus, dando uma sensação de conforto sólido. Aquilo dava-lhe como um acréscimo de consideração para si mesmo. Em cima, a Margarida, que voltaria num instante, deixara a cancela aberta: e um grande silêncio reinava dentro da casa: tudo parecia adormecido, sob a grande calma do dia. Uma luz forte caía da clarabóia; o cordão da campainha, com a sua grande bola escarlate, pendia imóvel. Então veio-lhe certa idéia absurda de noivo folgazão: entrar pé ante pé, ir ao quarto surpreender a Lulu, que ordinariamente àquela hora se vestia para o jantar. E sorria-se já do gritinho que ela ia dar, em saia branca talvez, com os seus belos braços nus. A primeira sala era de jantar: e para ali comunicavam, por duas portas de reposteiros, o boudoir dela e a sala de visitas. Entrou. No chão esteirado os seus sapatos de verão, de sola fina, não faziam rumor. E tudo parecia desabitado, caído num silêncio, tão grande, que se sentia dentro da cozinha vir um som de frigir, e na varanda os movimentos do canário dentro da sua gaiola. O reposteiro do quarto dela estava corrido, e ele, sorrindo baixo, ia levantá-lo, assustá-la – quando da porta fronteira, que era a da sala de visitas, veio através do reposteiro meio corrido, um ligeiro rumor, vago, indistinto, como dum vago suspiro, um som de garganta. Ele voltou-se, percebeu que ela estava lá, espreitou. E o que viu, Santo Deus, deixou-o petrificado, sem respiração, todo o sangue na cabeça, e uma dor viva no coração, que quase o deitou por terra… No canapé de damasco amarelo, diante duma mesinha, com uma garrafa de vinho, Lulu, de robe de chambre banco, encostava-se, abandonada, sobre o ombro dum homem, que lhe passava o braço pela cintura, e sorria, contemplando-lhe o perfil, com um olhar afogado em languidez. Tinha o colete desabotoado. E o homem era o Machado.