Músicas para uma nova sensibilidade

Por Edson Zampronha

Nossa sensibilidade à música não é constante. Músicas compostas em outras épocas e culturas muito provavelmente foram criadas a partir de enfoques diferentes daqueles que temos hoje. Ouvintes de outras épocas e culturas demonstram ser sensíveis a certos aspectos da música que possivelmente coincidam só parcialmente com aqueles aos quais somos sensíveis atualmente. Se existem novas sensibilidades que são próprias do nosso tempo, será no espaço dessas novas sensibilidades que poderemos ver o surgimento de algumas das músicas mais interessantes de nossa época. Músicas inovadoras e comunicativas, especialmente quando operam diretamente sobre e para essas novas sensibilidades.

Mas… ao que me refiro exatamente quando falo em sensibilidade? A teoria musical do século XI, por exemplo, revela que para a cultura daquele período certas combinações de notas que hoje podemos considerar consonantes eram consideradas dissonantes. Embora a afinação no século XI seja um pouco diferente da nossa, a razão principal dessa diferença possivelmente se deve ao fato de os ouvintes daquela época concentrarem sua atenção em certas qualidades do som e nós em outras, e no fato de eles atribuírem valores diferentes dos nossos às qualidades que observam. Quando combinamos diferentes notas podemos focar nossa atenção na proporção entre suas afinações, na distância relativa entre as notas, na natureza e qualidade dos timbres utilizados, nos efeitos que resultam desta combinação, na forma como as notas são mantidas ou se modificam no tempo. Há diversos aspectos que podem ser objetos de nossa atenção. Quando somos sensíveis a um aspecto em particular, nossa atenção se dirige fortemente a ele, e uma leve alteração neste aspecto pode produzir uma grande alteração na forma como entendemos o que escutamos e como respondemos ao que escutamos. No entanto, se somos indiferentes a certo aspecto, variações que ocorrem nele podem ser consideradas sem importância, ou inclusive podem ser completamente ignoradas.

Realizando uma analogia com a fala, e desconsiderando casos de falantes bilíngues e outros casos mais complexos, é muito conhecido o fato de falantes da língua espanhola serem pouco sensíveis às diferenças entre “ô” e “ó” na língua portuguesa (a diferença entre “avô” e “avó”, por exemplo, pode chegar a ser irreconhecível). De forma similar, falantes do português brasileiro são pouco ou nada sensíveis à diferença entre “man” e “men” do inglês. Mas certamente seríamos sensíveis à diferença entre “man” e “men” se tivéssemos aprendido a falar nos EstadosUnidos (o inglês seria nossa língua materna), e seríamos pouco ou nada sensíveis à diferença entre “ô” e “ó” do português se tivéssemos aprendido a falar na Espanha (o espanhol seria nossa língua materna). O importante, aqui, é observar que estas sensibilidades são construídas (não nascemos com elas) e estão em íntima conexão com contextos culturais específicos. Elas são construídas no âmbito do indivíduo, de maneira diferente em cada um de nós, mas não são algo exatamente subjetivo. De fato, são construídas em um contexto sociocultural concreto, e se conectam fortemente com ele.

Escutar requer interpretar aquilo que nos chega aos ouvidos, e esta interpretação leva em conta um grau variável de aprendizagem. Aprendemos a ouvir, e nos tornamos sensíveis a certas características mais que outras. Quando escutamos características que são relevantes para nós, nossa percepção amplifica essas características para demarcar com clareza aquilo que escutamos. Quer dizer, não escutamos de forma realista o que nos chega ao ouvido. Ao contrário, nossa sensibilidade distorce aquilo que escutamos em busca de uma inteligibilidade, podendo inclusive introduzir em nossa percepção sons que não estão efetivamente soando de modo a construir aquilo que, para nossa sensibilidade, faz sentido. Por isso, a característica que no século XI torna consonante ou dissonante certa combinação de notas pode ser indiferente para nós, até o dia em que aprendemos a identificá-la. Passamos a ser sensíveis a essa característica, e podemos compreender de que forma certos valores se associam a ela naquela época.

Nesse sentido, é também possível ver a história da música como a história de como a nossa sensibilidade se transforma no correr dos séculos. Transformações significativas nas ideias e práticas de uma época podem alterar nossa sensibilidade em vários âmbitos, incluindo a sensibilidade musical. Da mesma forma, o surgimento de novas sensibilidades na música pode contribuir para transformar ideias e práticas de uma época. A música não é simples reflexo da época em que foi criada. Ela também é capaz de participar da construção de sensibilidades que podem fazer diferença na forma como enfocamos as coisas. Também podemos utilizar sensibilidades de outras épocas para reler a nossa (e a recíproca é verdadeira), e podemos cruzar sensibilidades de formas variadas e originais para gerar releituras fundadas em diferenças entre sensibilidades. Os resultados artísticos destas operações podem ser notáveis.

As músicas experimentais de hoje geralmente exploram o potencial oferecido pelas novas sensibilidades de nosso tempo. Atualmente somos muito sensíveis a outras formas de interatividades que não existiam em um passado recente, o que altera desde a forma de compor até a maneira como o ouvinte se relaciona com a música, seja em um concerto ou através de um smartphone. Também estamos nos tornando cada vez menos sensíveis à dinâmica (mudanças de volume sonoro) como recurso de expressão, que cada vez mais cede lugar ao timbre, à morfologia e à gestualidade sonora, alterando o modo como a expressividade é construída na música de recente. Também somos mais sensíveis à música apresentada em contextos claramente multimídia, e menos sensíveis à música apresentada de forma quase isolada das demais linguagens, o que nos leva a um conceito diferenciado de espetáculo envolvendo a linguagem sonora. O foco na estrutura interna da obra, que chegou a ser o centro fundamental da criação musical em certos momentos do século XX, dá lugar ao foco no contexto, modificando a forma como a significação da experiência musical é construída. Até a antiga forma de comunicação musical, que durante certo tempo se concebeu segundo o esquema emissor / intérprete / receptor, já deu lugar a um novo modelo mais construtivista, com uma participação mais generativista (em graus e formas muito diversos) do público, mesmo quando a obra é apresentada em um concerto com um formato mais tradicional.

As músicas do passado não deixarão de ser obras excelentes. A prática interpretativa na atualidade busca aproximar estas obras à sensibilidade atual com resultados muito positivos. No entanto, essas obras não atuam diretamente sobre nossas novas sensibilidades porque foram compostas a partir de outras. Hoje, há músicas experimentais excelentes que trabalham justamente sobre essas novas sensibilidades explorando diferentes formatos de concerto, instalações sonoras, instrumentos e interfaces, interações com imagens (visual music, por exemplo), relações com o contexto (soundwalks, entre outros tipos), circuit bending realizado em tempo real e muito mais. Os/as autores/as, para mencionar somente alguns, podem ser tão diferentes e variados como, por exemplo, Ryoji Ikeda, Jaime Oliver, Salvatore Sciarrino, Jaime Del Val, Kaija Saariaho, e me incluo nesta lista. Há diversos artistas mais que poderiam ser mencionados, artistas interessantíssimos, cada um com suas próprias características e enfoques.

Enfim, do meu ponto de vista, as obras destes autores/as se tornam significativas justamente porque operam criativa e diretamente sobre estes novos espaços que a sensibilidade atual nos propõe. Estes novos espaços estão abertos à criatividade, à imaginação, à inovação e a formas originais de interação com outras linguagens artísticas. E neste espaço o ouvinte só tem a ganhar ao vivenciar obras espetaculares que evidenciam, de formas diversas, o espaço da sensibilidade mais característico de nosso tempo.

Ouça Edson Zampronha:

Música 1

Música 2

Música 2

EDSON ZAMPRONHA

Edson Zampronha (Rio de Janeiro) é compositor e pesquisador. Recebeu dois prêmios da Associação Paulista de Críticos de Arte – APCA, foi vencedor do 6º Prêmio Sergio Motta pela instalação Atrator Poético realizada com o Grupo SCIArts, e foi compositor homenageado, junto com Hermeto Pascoal, no IV Festival de Música Contemporânea Brasileira. Tem recebido encomendas de diversos grupos e instituições, como do Museum für Angewandte Kunst, em Colônia (Alemanha), e do Centro Mexicano para a Música e as Artes Sonoras – CMMAS (México). Seu catálogo inclui mais de 100 composições para orquestra, banda sinfônica, coro, balé, teatro, instalações sonoras, música eletroacústica, performance, música de câmara e cinema. É Doutor pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e realizou pesquisa de Pós-doutorado em música na Universidade de Helsinque (Finlândia). É Professor na Universidade de Oviedo, Espanha.